9 de julho de 2015

Memórias-primas

Sempre que andava sozinho pelas ruas de minha cidade natal, forçava uma concentração que me avermelhava os olhos em busca de uma inspiração. Como as conhecia por completo, de ida e de volta e de avesso, pois o avesso eram suas faces mal planejadas, procurava extrair um ruído qualquer de uma poeira que não subira no passeio de ontem ou apenas me espantava com o olhar perdido de mais um gato abandonado que viera se juntar aos outros adormecidos na praça da boca de fumo. Qualquer novidade era matéria prima para um texto qualquer. Foi quando me mudei para o Rio de Janeiro – de ruas também avessadas – e desde então venho me mudando – que percebi que as novidades de minha cidade natal, embora inventadas por uma concentração ferrenha, já existiam desde antes de mim. Enquanto autodefesa, uma cidade do interior precisava se fazer sustentar e existir. Porém, no Rio de Janeiro, as novidades antecediam minha concentração de maneira que, num estado de espírito que não me permitia decidir entre experienciá-las ou usá-las para fim de letras, enfim, por puro descuido de um devaneio, elas me atravessavam o corpo e de repente eu tropeçava num aclive do arpoador. E então já era outra sensação: o arpoador – e de repente já era o pôr do sol – e depois era um corpo tatuado – e logo em seguida um cachorro-quente de sete reais. O Rio de Janeiro me esgotava tanto e me queimava a pele que nunca soube botar em palavra escrita a sensação de um calor de quarenta e poucos graus. Hoje, não sabendo falar de minha cidade atual – do lugar dela e sobre ela – algo que vá além de descrevê-la reta e artificialmente projetada - é que consigo me concentrar nas lembranças feitas de areia e arrastões das praias cariocas. O que me faz cada vez mais reconhecer que minha escrita só pode ser possível através da escuta da mudança. Estar fora de casa é não reconhecer nem como se lava uma louça. Se eu conseguia traduzir em pensamento escrito qualquer coisa do lugar de minha cidade natal é porque lá eu sabia como lavar uma louça. E, cúmplice da cidade que se defendia para fazer história, sabia distorcer seus fatos em tempo real. Não sabendo, então, à época, das intenções desse Rio de Janeiro que nem se defendia ou se importava com os seus, só me restava me calar, humilde, diante da imagem de um Cristo-não-sei-se-Redentor. Na verdade, se só consigo botar em palavras minuciosamente combinadas lembranças distorcidas de um passado que já se encontra em outra localização geográfica – e paradisíaca –, e se as lembranças nada mais são do que fatos distorcidos, pois assim as descobri no percurso de escrita, quem escreve por mim não sou eu senão a própria lembrança que tem vontade própria. Soma-se a essas propriedades a independência própria da escritura. E quando reconheço um momento vivo e verdadeiro de pensamento que me transporta para a realidade de um tempo que foi como se fosse presente, sei que se trata de memória e não de escrita. Falando de lembranças, agora, é que percebi que as memórias são legítimas e verdadeiras e intraduzíveis, pois indistorcíveis. Falando de lembranças, agora, que senti na memória saudades de um presente só meu e já ido, jamais (d)escrito. Lembranças são impressões de memórias. Eu tenho lembranças que, embora escassas, defendem e resgatam minha cidade natal do abismo. Eu tenho memórias do Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro só se fala por lembranças. Minha cidade atual só será recuperada em lembrança num futuro que não sei onde nem quando; sigo nela acumulando memória-prima. Pois tal verdade não consigo mentir: as lembranças são apenas o contorno falho de minhas memórias brutas e brutais: uma membrana fina envolvendo um núcleo paradoxalmente interno-externo, altamente corrosivo, ao qual a lembrança resiste em contato e sem trair. Lembrança se imprime, mas não revela nada. Memória não se escreve e não se falha.