10 de dezembro de 2014

Na sala de espera (um labirinto escuro)

A procura é um labirinto escuro. Sei disso por experiência própria. É no escuro que se procura uma mão. E quando a encontramos num dos muitos corredores mal iluminados desse labirinto é com surpresa que recebemos seu afago. É que quando se encontra, no escuro, a mão que afaga, esquece-se da procura. A busca quando terminada de nada serve e a mão se torna eterna, sempre nossa. É com muito penar que se descobre a cor que tem a mão. É com muita dificuldade que sentimos sua textura. Na escuridão profunda anseia-se pelo mínimo de luz que lançará o vislumbramento da mão ideal para que não se escolha a mão errada. Mas nas sombras, a mão aluna que se choca maciamente com a nossa procura nos acaricia com determinação, e então se faz nossa. Sentindo seu toque fechamos os olhos e assim se faz a luz: vemos por completo os dedos, os nós dos dedos, as unhas, os finos pelos, a palma, o tecido fino das costas, as veias saltadas. Sei disso tudo porque hoje avistei um casal sentado numa sala de espera de um consultório médico qualquer. Sei disso porque o rapaz de cabelos muito grandes e ondulados era afagado por outro rapaz de cabelos muitos curtos e barba acentuada. Sei que naquele instante eles se esqueceram da busca porque já eram eternamente deles mesmos. Sei também que aquele que afagava carinhosamente os cabelos muito grandes e ondulados do outro na verdade apertava firmemente a mão de seu achamento esquecido. Eles não sabem, mas com tamanha visão de simples entrega, fui afagado por eles também. Porém de olhos abertos. E - não sei por quanto tempo, mas - renovei minhas energias de busca pelos corredores escuros do labirinto dos encontros.
(10/12/2014)

2 comentários:

  1. E o que acha disso?

    "A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!"

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