6 de junho de 2014

Há de se descobrir a dor

Súbito, a vida. Um calor de jaqueta jeans que toca a pele, fria, e cede. Há algo acontecendo em mim, grave, avassalador mas lento, morno e ainda assim com a força de um de repente. É injusto. Porque exatamente no reconhecimento de uma felicidade no mês de junho, sinto fisgar a boca. Uma dor ácida de afta. Mas ela está aqui há algumas horas já, não surgiu agora - é inconcebível. E no entanto é no momento de brilho nos olhos e plenitude que percebo: pinça. É no meio do obrigado deus por existir e me fazer perceber, é exatamente aí que percebo: há algo de errado: há mais uma coisa, não se esqueça, há sempre mais alguma coisa.
Olho no espelho e há mesmo mais alguma coisa e é difícil de enxergar. Droga, mil vezes droga. O pontinho amarelo está ali em algum lugar e através de caretas indesejáveis diante do espelho vejo: dentes, gengiva - lá. Um pontinho amarelo que dói o inferno, uma dor lâmina, uma sucessão de pequenas implosões.
Mas há algo mais, sempre há. É de uma tal clarividência pois ela estava lá e eu não havia percebido. É quando jogamos luz que percebemos. E minha felicidade anterior era de uma luz tão clara e branca - não amarela - que tornou a descoberta possível. A dor existe e também precisa ser descoberta. Ah, eu que pensava que o estável era o sofrimento e que a alegria somente pincelava esse quadro trágico de existência. Não. A dor não é estado, afinal. É surpresa tanto quanto uma alegria infinitesimal. Há de se descobrir a dor também. E a própria descoberta. Obrigado a deus por isso, ele que sempre faz por onde ser elogiado.


(06/06/2014)