5 de abril de 2014

B

Vou descrever B na tentativa de eternizá-lo, mas não em mim. Vou dar a B a extrema-unção. Vou descansar também.
B tem lábios finos e sobrancelhas grossas. B tem braços fortes e dedos firmes. Costelas enormes, ele tem. B é enorme. Quando me abraça, ele me aperta todo; eu sufoco e rio. Às vezes brinco de percorrer os dedos nos caminhos das veias dos braços de B (ele nem se arrepia). A língua de B é macia e molhada. Seus dentes são muito brancos – B não fuma, mas adora café. Sua voz é suave e viril. Ele se senta no sofá com uma perna encolhida, uma mão no controle remoto ou na nuca ou na minha nuca, e a outra sempre apoiada no pau. Ele conversa comigo com a mão apoiada no pau. B também gosta de mulheres.
Vez ou outra eu me perco nos ensinamentos de B. Ele não sabe, mas é todo-poderoso. Ele não sabe, mas eu acho lindo tudo o que ele diz. B acredita nos remédios, eu também. Mas tenho meus motivos. B pensa vinte minutos ou dois dias antes de me responder. B medita todos os dias, de manhã e de noite. B não cozinha mas é muito saudável.
Nos lugares públicos, eu me sinto invisível do lado de B. Do lado de B eu uso a burca. Embora no quarto, na cozinha, na sala, eu apareça todo e pleno e nu – e ele me cobre de elogios. Inclusive, na cama B me machuca, mas logo em seguida me enche de beijos e língua. E depois dormimos.
B me disse que às vezes sonha comigo – e que no sonho eu fico. B sabe que se disser fica, eu fico. Por isso não diz.