28 de setembro de 2012

Al-moço

Da mesa azul olho o rapaz que sente frio em pleno Rio de Janeiro (ensolarado). No chão umas folhas rodam em pequenos redemoinhos inocentes. As pessoas daqui sentem frio demais. Eu só tenho as mãos geladas, as mangas curtas. As pessoas daqui sentem frio demais quando venta(m). As pessoas gesticulam demais. 
Eu às vezes sou sensível demais. Tenho escutado frases muito bonitas. Eu às vezes sou insensível demais. De livros aleatórios leio duas, três páginas por dia. Força poética não se cria. Talvez durma dentro de mim. Às vezes sou invisível demais.
O rapaz olha para a esquerda. Acena para alguém, mexe nos cabelos. O rapaz é bonito e tem nome. Mas não reparei se coça a barba. Eu não tenho barba. As palavras não têm fim. As palavras são invisíveis. O rapaz, não.
Eu também sinto frio no Rio de Janeiro. Eu tenho um pouco de charme e de rancor. O rapaz tem um casaco bonito. O destino tem ódio de mim. O Jardim continua lindo. O redemoinho se afasta. Muitos andam, alguns correm, outros passam. O rapaz me causa náuseas. A timidez é uma indecência. O rapaz não olha para mim.