30 de julho de 2012

Meados restantes

ODE A AFRODITE
(Safo)

"Imortal Afrodite, de trono de cores brilhantes
filha de Zeus, urdidora de enganos, eu te suplico
não submetas a dores e tormentos,
Rainha, meu coração (...)"

Se o desejo de escrever bastasse, as páginas não suportariam o peso de tanta história para contar, querido. Tantos e tantos dias passam, um no encalço do outro, remendando um fim a um começo e o começo - que passando claramente pelo meio - se direciona novamente ao fim. (E há muitos cigarros de dois tragos só, muitas turbulências no meio de tudo isso, sim). Ah, hoje acordei assustado. A sua voz de fantasma gritava comigo. Gritava como Janeiro, como Fevereiro, nosso fim que até hoje permanece sem remendo. Eu só podia esperar que o tremor do meu corpo passasse e só depois pude passar o café. Porque você gritava. E eu me segurava nas cordas fortes que se formavam de suas veias grossas, enquanto você gritava que não, não respiramos mais, meu amor, que não, não podemos mais, meu amor e eu caindo me segurava, minhas próprias veias engrossando de tanta força. Se você soubesse, querido. Porque depois surgia Afrodite, a nossa que era feita de asas, e eu pedia livra-nos das inquietudes, ajuda-me no combate, e ela só piava. Como se lamentasse nos ter abençoado, como se dissesse perdoem-me, filhos, perdoem-me. Se ao menos eu não tivesse acordado, querido. Eu teria exigido a verdade. Eu a teria agarrado e exigiria a verdade. Quem de nós existe? Quem de nós resiste? E teria revogado o óbvio que era-nos de volta ou o próximo, com nosso devido fim dado. Se você imaginasse, querido. Que enquanto você arranca páginas em vão eu tenho vagado nos meados ainda restantes do nosso fim. Porque se eu tivesse perguntado à grande ave sobre nosso fardo, ela cantaria que estamos condenados ao final sem remendos. Enquanto os dias, estes passam, um no encalço do outro, remendando um fim a um começo e o começo, que passando claramente pelo meio, se direciona novamente ao fim...

19 de julho de 2012

Povoando luzes

Ando ziguezagueando pela cidade, expurgando fantasmas, me povoando por aí. Não é difícil: Vou colando minha pele nas paredes ásperas, me arrastando nos chapiscos – e aí pronto: as paredes brilham, o sangue escorre e eu vou seguindo o caminho bem mais limpo e mais santo.
É que meu movimento dançante é expansivo e não reto.
Quem vive à beira da vida sabe que o risco é mesmo de morte – morte da razão. Bobeou, caiu. E eu que não sigo a linha fina das beiras, caio vez e outra. Porque bailarino não é equilibrista. Tampouco sou gente que vive direito. Aliás, até mesmo para a perfeição existe descaminho. E graças a Deus. Ora, que o caminho para o paraíso é estreito. E se não consigo passar por ele, abro à força uma estrada maior com o meu movimento (expansivamente) destrutivo.
Os obstáculos são possibilidades de purificação. Para mim, contorná-los não basta. É preciso reduzi-los a luz e preenche-la de mim – não o inverso. Eu, além de louco, já sou todo iluminado; não preciso de luz. Mas ela precisa tanto de mim, que me doo em caridade.E aí acontece o eu povoado na luz: é tão lindo!!!
É que humildade demais cega a sensibilidade. Uma pessoa grande que se sente triste, chora; a que se sente feliz, morre de vergonha. Não! Eu ordeno para mim mesmo: 
Povoe-se nas coisas.
Metamorfoseie-as em luz.
Preencha-a com a sua grandiosidade.
Sim. E vou existindo como um todo-poderoso de mim mesmo: acima da tristeza e da felicidade; em algum além.
A bem da verdade, posso povoar uma vida inteira de tanto tudo que há em mim. Eu posso tanto e tanto. Que o mundo não suportaria. O mundo ainda não quer ser luz.

PS: Ontem tentei me povoar numa fotografia dentro de um porta-retratos. Quando tem lembrança demais, fica difícil. Mas se fechar os olhos, vai.