26 de março de 2012

"As ondas"

Então ele me disse que se fosse assim, tudo bem, e eu subi as escadas como quem sobe fazendo muita força, apesar de ter dito sim a ele e à escada. O último degrau traria o conforto de casa. Tirei as chaves do bolso – com aquele chaveiro pesado demais, vou arranca-lo amanhã – e entrei. Tranquei a porta, liguei o chuveiro. Água*. Perguntei-me por um segundo como estaria Pilar, a do Saramago. Depois pensei no que ele estaria pensando no caminho de volta pra casa, ele que me deixou na escada e disse que se fosse assim, tudo bem. Era para eu ficar tranquilo porque suportaríamos. Mas eu já quase sentia o peso do Oceano Atlântico sobre os meus ombros quando ele partisse.
Como de costume me sentei no chão do banheiro e deixei a água escorrer um pouco pela minha nuca, pelas minhas costas. A dor na lombar aumentava. Pensei se sentiria mais dor quando tivesse definitivamente o oceano pairando sobre meus ombros, então saí do banho e me recusei a ler As Ondas antes de dormir.
Não tive sonhos e devo ter acordado dizendo graças a Deus por isso. Abri as janelas e também agradeci por não ter um apartamento com vista para o mar. Fiz meu café na esperança de que dessa vez fosse o melhor café, mas nunca seria, mas nunca desistiria de café. Fui trabalhar. Foi tranquilo e o único peso durante o dia foi o dos livros que eu carregava para lá e para cá. Graças a Deus, Deus, pelo trabalho. Decidi que escreveria um parágrafo sobre Deus quando chegasse em casa. Também troquei palavras com ele durante o dia, não com Deus, com ele que me telefonou pra saber se estava tudo bem. Estava funcionando na teoria, eu disse. Ele percebeu que na prática não era a mesma coisa, mas disfarçou e desligou.
Voltei para casa, escrevi o parágrafo. Inventei uma desculpa para que hoje ele não viesse - muito trabalho pra resolver em casa. Deitei no sofá e refleti mais uma vez sobre se estaria realmente tudo bem quando ele partisse. Estaria porque combinamos que estaria. Ser tão forte e grandioso quanto o Oceano que nos separa, ele disse. Porque se for assim, tudo bem. Como que pedindo por ajuda, peguei As Ondas.
No Domingo, fomos ao aeroporto.

* Dedicatória de Saramago em Caim (2009), “A Pilar, como se dissesse água”. 

14 de março de 2012

A grande luz

A língua sai de dentro da boca e toca o mínimo de prazer que existe na lágrima: o sal. Os olhos piscam. Estamos agora na cozinha, mas nossos pensamentos estão em algum lugar do passado, não sei ao certo o mês ou o ano. Estamos lavando, sim, as nossas almas, que deveriam ter permanecido intocadas. Não conseguimos.
Veja, ele diz. Ainda há beleza no sol. Eu permaneço de costas e já não sinto mais o gosto do sal. Estou e não estou aqui. Fico pensando no peso do meu corpo entrando no dele sem prazer, como se estivesse exorcizando todos os seus buracos das impurezas a que foram submetidos. Depois sim poderia acolhê-lo com certa piedade. Enquanto eu mesmo, que tive mais pesos e mais impurezas dentro e fora de mim, tremo. Sou uma besta. Quase sinto que vou tocá-lo.
Mas não. Não há beleza no teu sol, minha raiva sugere. Embora seu rosto apagado ainda irradie um fio de luz na linha dos olhos. Qual é o grande peso na consciência? O que nos impede da grande paz? A mim, não poder me desdobrar em dois para provar que sou melhor do que qualquer par que quisesse se aventurar e fazer sujeira no teu corpo, te fazendo orgulhoso de mais uma grande aventura. Aventura tem sido aceitar. Aventura seria você olhar, como fez aquele desconhecido se jubilando de prazer enquanto eu cavalgava um também desconhecido corpo rijo. Desafio-te. Aventura-te? Penso. E nada teria o gosto de vingança. Porque não somos capazes. Na realidade só temos implorado por certa alienação - que nunca virá.
Então decidimos que não há mais beleza no sol porque ele já se pôs e agora é a hora da lua. Esperaremos pela próxima grande luz. Não esperaremos? Os dias passam.