11 de janeiro de 2012

Interlúdio

As bocas unidas provocaram sensações físicas e espirituais, porém desta vez sem grilhões. O rosto redondo de Deus olhou, pela primeira vez na vida, em aprovação. Os pensamentos que se repetem se tornaram pensamentos novos que se repetem. O ar era místico. Posso entrar?, estranhos perguntaram, e eu disse sejam bem-vindos. Como num parto, o cordão umbilical que me ligava ao (a)feto de um mundo anterior rebentou em faíscas, mas eu não gritei. Os meus olhos se abriram e eu era todo carne, todo nervos e emitia pequenos sons de prazer. As entranhas da minha alma batiam palmas, rejubilando-se com o novo, com o mais vivo de mim mesmo: eu projetado na alma dos outros. De pequenos séculos in-teriores nascia a nova era. Partes de mim surgiam em outros braços, outras bocas, outros sexos. E de oração em oração eu só rezava para ser banhado pelo universo que era meu por direito, sem medo do pecado, sem medo da luxúria, sem medo da fartura. Eu voltei e era eu. Estou pleno.