16 de dezembro de 2012

Desdobramento

"------estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quem ficar como que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?"
(LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H.)

Quando começou, já era morte súbita. Apesar do dia pacato e das borboletas no jardim, seus olhos eram frios. O brilho do dia anterior era o reflexo da luz do sol no chuvisco. Não era faísca. E hoje, éramos os dois pensantes, as únicas faíscas eram as que surgiam de nossa busca retroflexa. Maquinaria rangendo, buscando dados vivos de horas atrás.
Mas hoje faz sol.
E as borboletas amarelas pairam sobre as rosas vermelhas.
Pois ele era todo atento aos sinais e julgava que a loteria da vez não seria sua. Sentado no Jardim, começava a escrever e parava, assim como eu. Era todo eu, só que pelo inverso. Na verdade ele era eu ontem, no chuvisco, procurando faíscas. Mas como se não fosse mais.
Era atento aos sinais, como já foi dito. Seus dois pontos eram o prenúncio do fim: o que viria logo após a um começo. Precoce. Ejaculado antes da hora. Mas ainda que bem pouco, era vivido. Era novo, assim como eu. Aliás, quem vos fala é um eu vivido e novo. É eu.
E vívido, ele balançava os pés, mal avistando a morte que já havia lhe ocorrido ou que ele mesmo teria provocado. Enxergando pouco, sempre à espera, olhos no horizonte esfumaçado. Ontem ele estava vivo, hoje não sabia mais. Hoje que era para estar mais vivo e grande pela experiência do ontem. Mas não, que ontem fora mentira?
Fumou um cigarro. Então. Não teve efeito. Fumava como se tivesse treze anos, ele que tinha vinte e seis. Hoje ele tinha treze anos. E o dia estava lindo e era uma injustiça, reconheceu. Porque sabia que aos treze anos não saberia como suportar a visão de borboletas pairando sobre rosas vermelhas num dia assim, um tanto triste. Ele, que tinha vinte e seis, graças a Deus. Não tinha mais treze.
Refletiu então que não era tão injustiçado assim. Quer dizer: Deus era injusto porque sua justiça era tardia. E somente com vinte e seis anos ele descobria que aos treze, de fato ele era um incapaz na vida.
Mas ontem aconteceu. Eu mesmo vi, porque estava lá e não tapei os olhos. E não sou de inventar chuva à toa. Ontem choveu nesta cidade de sol. E porque ele havia sido olhado pelo olhar de Deus, aconteceu.
Aconteceu o quê? Ontem. Perdoa-me se não sou capaz de dizer, mas ontem existiu, existiu. Pergunte a ele, que tinha os olhos tão abertos (mas hoje, traz a boca toda fechada). E eu me confundo com tantas palavras vazias que só fazem dizer sobre o hoje, sendo que tenho todos os fatos de ontem - muito mais do que chuva, mas tão menos que palavras! - na ponta da língua, prontos para serem libertos, como se libertos eles finalmente existissem. 
Mas, espera um minuto. Que, se não consigo externar... Ontem aconteceu apenas dentro dele? E eu que o vi, vivi tudo através dele? Somos ele?

(...) (?)

* Inconscientemente(?) inspirado em A paixão segundo G.H. (no strings attached)

11 de dezembro de 2012

Dos que não amam

O ser humano adulto é triste e solitário porque sonha inconscientemente com a qualidade de vida dos que têm amor. Assim, a filosofia de prazer absoluto, idealizada e facilitada nos dias de hoje, é um equívoco: o gozo de ontem é o arrependimento de hoje; e na maioria das vezes, o vício de amanhã.

14 de novembro de 2012

Ritual noturno

Você que se perdeu em algum canto
de alguma de nossas esquinas
quando encontrar a minha entrada 
evite-a ignore-a pule fora por favor
que eu aqui farei o mesmo

A derrota é nossa, nós já sabemos
mas não a sofreremos juntos.
nós que nos amamos juntos e contentes
não esperaremos pelo pôr do sol
não trocaremos mais nossos lençóis sujos de amor

E ao fim de cada tarde a noite vindo
nos dirigiremos cada um a sua cama vazia
um território individual e macio 
o suficiente para suprir a necessidade
do sujeito que falta

E não cantaremos e não rezaremos
nem ao deus nem ao diabo, dormiremos apenas.
sem o calor que sai da boca e encerra na nuca
sem o cordão que nos amarra nos aperta invisível
sem vitória gemida estalos agonias

Sozinhos horrorizando a companhia do dia
que vive e - maldito - nasce todos os dias
insistindo na promessa fula da cura temporal
enquanto a morte, a verdadeira cura, a vacina
tem seu dia ainda desconhecido por nós

24 de outubro de 2012

Há tanta coisa que foi deixada para trás, presa nos meus calcanhares como grilhões – mas são leves e bonitos. 
E você que tem a chave, e poderia me libertar da leveza e da beleza que é te carregar comigo: não o faça.
É olhando para trás que eu olho para frente.
E um dia, te juro, giro forte (porque sei girar) e todo esse peso que trago nos pés rebenta, e você vai parar ainda que cambaleando, na minha frente.
E eu te direi cresci.
Os olhos deixaram de ser tristes para serem atentos, inquietos.
Pra você ver como o tempo passa, meu bem.
Não cura: adapta.
E eu te direi que sou todo adaptável.
E que os dias foram lindos. E que me habitaram mais do que nunca. E que me acordaram de manhã. E que me pagaram um café. E que me expulsaram de um quarto. E que me pediram em casamento. E que as dores na coluna continuam. E que meus movimentos se aperfeiçoaram.
E que acima de tudo o ponto final é o começo.
E colocaremos um ponto final em tudo o que vivemos.
E o começo de tudo o que vier depois será nós dois.
Outra vez.

13 de outubro de 2012

True north

I never needed you as much as I need now. Where is my true north on earth? Where is my soulmate to share my deepest thoughts and all my love? Life is playing tricks on me. And you... you are far away to help me pass through this game. Sometimes, I'm not better than myself. Sometimes, all I need is you shouting at me. 

And then, holding me tight.

9 de outubro de 2012

Toda vez que falo de ti
Meus lábios passeiam pelo teu corpo
Sal e beijos
Gosto e desejo

Meus lábios ainda falam de ti

1 de outubro de 2012

O sábio

Deus está no mar, ele disse. E Deus tinha estado no seu pensamento por dias e dias. E os dias passando. E não havia nada que insinuasse um retorno.
Embora Outubro tenha começado bem. Outro Outubro. Sobrevivera, afinal, a si mesmo, pensou. Penou, pesou, mas sobretudo vivia. 
Que a vida era difícil, sempre soubera.
Rise and fall.
Que o ser humano é insuficiente, também. Que a morte existe. Que a dor acrescenta. Que a alma chora. Que os olhos às vezes saltam das órbitas. Que luz e sombra são amigas. Que Deus é grande.
Que o vazio preenche.
Mas ainda assim mantinha-se inquieto. Tinha uns olhos nervosos, a boca seca. O peito e a barriga gelando vez e outra. Porque amor não acabava nunca. Porque ainda sangrava aquele último Outubro. Porque conhecera paixão cedo demais.
E a vida pra viver? Vivia. E o amor pra sofrer? Sorria.
Aconteceu:
Enquanto o sal do mar escorria, porque queria ser tocado novamente por gotas frias. Logo ele, tão seco e trincado:
A condição de tristeza como consequência de um erro podia e devia ser também motivo de profunda alegria. Ainda que não houvesse retorno.
“Eu vivo.”
E assim é.  

28 de setembro de 2012

Al-moço

Da mesa azul olho o rapaz que sente frio em pleno Rio de Janeiro (ensolarado). No chão umas folhas rodam em pequenos redemoinhos inocentes. As pessoas daqui sentem frio demais. Eu só tenho as mãos geladas, as mangas curtas. As pessoas daqui sentem frio demais quando venta(m). As pessoas gesticulam demais. 
Eu às vezes sou sensível demais. Tenho escutado frases muito bonitas. Eu às vezes sou insensível demais. De livros aleatórios leio duas, três páginas por dia. Força poética não se cria. Talvez durma dentro de mim. Às vezes sou invisível demais.
O rapaz olha para a esquerda. Acena para alguém, mexe nos cabelos. O rapaz é bonito e tem nome. Mas não reparei se coça a barba. Eu não tenho barba. As palavras não têm fim. As palavras são invisíveis. O rapaz, não.
Eu também sinto frio no Rio de Janeiro. Eu tenho um pouco de charme e de rancor. O rapaz tem um casaco bonito. O destino tem ódio de mim. O Jardim continua lindo. O redemoinho se afasta. Muitos andam, alguns correm, outros passam. O rapaz me causa náuseas. A timidez é uma indecência. O rapaz não olha para mim.

30 de julho de 2012

Meados restantes

ODE A AFRODITE
(Safo)

"Imortal Afrodite, de trono de cores brilhantes
filha de Zeus, urdidora de enganos, eu te suplico
não submetas a dores e tormentos,
Rainha, meu coração (...)"

Se o desejo de escrever bastasse, as páginas não suportariam o peso de tanta história para contar, querido. Tantos e tantos dias passam, um no encalço do outro, remendando um fim a um começo e o começo - que passando claramente pelo meio - se direciona novamente ao fim. (E há muitos cigarros de dois tragos só, muitas turbulências no meio de tudo isso, sim). Ah, hoje acordei assustado. A sua voz de fantasma gritava comigo. Gritava como Janeiro, como Fevereiro, nosso fim que até hoje permanece sem remendo. Eu só podia esperar que o tremor do meu corpo passasse e só depois pude passar o café. Porque você gritava. E eu me segurava nas cordas fortes que se formavam de suas veias grossas, enquanto você gritava que não, não respiramos mais, meu amor, que não, não podemos mais, meu amor e eu caindo me segurava, minhas próprias veias engrossando de tanta força. Se você soubesse, querido. Porque depois surgia Afrodite, a nossa que era feita de asas, e eu pedia livra-nos das inquietudes, ajuda-me no combate, e ela só piava. Como se lamentasse nos ter abençoado, como se dissesse perdoem-me, filhos, perdoem-me. Se ao menos eu não tivesse acordado, querido. Eu teria exigido a verdade. Eu a teria agarrado e exigiria a verdade. Quem de nós existe? Quem de nós resiste? E teria revogado o óbvio que era-nos de volta ou o próximo, com nosso devido fim dado. Se você imaginasse, querido. Que enquanto você arranca páginas em vão eu tenho vagado nos meados ainda restantes do nosso fim. Porque se eu tivesse perguntado à grande ave sobre nosso fardo, ela cantaria que estamos condenados ao final sem remendos. Enquanto os dias, estes passam, um no encalço do outro, remendando um fim a um começo e o começo, que passando claramente pelo meio, se direciona novamente ao fim...

19 de julho de 2012

Povoando luzes

Ando ziguezagueando pela cidade, expurgando fantasmas, me povoando por aí. Não é difícil: Vou colando minha pele nas paredes ásperas, me arrastando nos chapiscos – e aí pronto: as paredes brilham, o sangue escorre e eu vou seguindo o caminho bem mais limpo e mais santo.
É que meu movimento dançante é expansivo e não reto.
Quem vive à beira da vida sabe que o risco é mesmo de morte – morte da razão. Bobeou, caiu. E eu que não sigo a linha fina das beiras, caio vez e outra. Porque bailarino não é equilibrista. Tampouco sou gente que vive direito. Aliás, até mesmo para a perfeição existe descaminho. E graças a Deus. Ora, que o caminho para o paraíso é estreito. E se não consigo passar por ele, abro à força uma estrada maior com o meu movimento (expansivamente) destrutivo.
Os obstáculos são possibilidades de purificação. Para mim, contorná-los não basta. É preciso reduzi-los a luz e preenche-la de mim – não o inverso. Eu, além de louco, já sou todo iluminado; não preciso de luz. Mas ela precisa tanto de mim, que me doo em caridade.E aí acontece o eu povoado na luz: é tão lindo!!!
É que humildade demais cega a sensibilidade. Uma pessoa grande que se sente triste, chora; a que se sente feliz, morre de vergonha. Não! Eu ordeno para mim mesmo: 
Povoe-se nas coisas.
Metamorfoseie-as em luz.
Preencha-a com a sua grandiosidade.
Sim. E vou existindo como um todo-poderoso de mim mesmo: acima da tristeza e da felicidade; em algum além.
A bem da verdade, posso povoar uma vida inteira de tanto tudo que há em mim. Eu posso tanto e tanto. Que o mundo não suportaria. O mundo ainda não quer ser luz.

PS: Ontem tentei me povoar numa fotografia dentro de um porta-retratos. Quando tem lembrança demais, fica difícil. Mas se fechar os olhos, vai. 

8 de junho de 2012

Começou uma ventania. Ouço alguns balanços rangerem. As plantas do apartamento estão agitadas. Os pregadores no varal balançam de um lado para o outro. Temos um quintal. O muro amarelo faz uma divisa interessante com o céu carregado - duas vezes noite, tamanha a escuridão das nuvens. A iluminação vem da varandinha. É fraca. O mundo está prestes a descarregar toda sua densidade. Também vai se tornar fraco.
*** 
Estou sentado numa cadeira azul. Minha garganta queima um pouco quando a fumaça entra, de forma que me acostumei a sempre ter do lado um copo com água gelada. A verdade é que nunca me habituei ao cigarro, mas alguma coisa precisava ser eleita como forma de preencher certo vazio (de alma?) que tem me afetado – nada mais óbvio. Aos clichês sou completamente habituado.
***
Me veio uma agoniazinha de azul.
Acho que estou farto.


* Não estou mais permitindo comentários no blog. Pensando seriamente - infelizmente - em fechá-lo.

11 de abril de 2012

------------------------------------------------- Dê-me um corredor deserto, uma cadeira velha, um bom livro. Uma vez ou outra um rosto bonito passando. Um banheiro vazio. Muita calma, algumas poucas aventuras, alguns gritos. Dê-me de vez em quando uma mordida no ombro, um sussurro no ouvido. Um beijo molhado, mas depois me deixe um pouco sozinho. Dê-me uma caderneta e uma caneta fina. Deixe-me escrever simultaneamente um conto romântico e uma tragédia; dê-me as Erínias. Dê-me tempo para pensar. Um motivo para sentir ciúme, outro para sorrir. Um amigo para tarar. O pão de cada dia. Até mesmo uma discussão banal. Dê-me uma liberdade presa entre quatro paredes. Um perfume caro contido num vidrinho. Gargalhadas, caretas, veias saltando. Dê-me uma mão no ombro, se chorar. Dê-me algumas fumaças. Dê-me alguns perigos. Os garotos todos. Um grunhido.

Não me dê amor.
***

26 de março de 2012

"As ondas"

Então ele me disse que se fosse assim, tudo bem, e eu subi as escadas como quem sobe fazendo muita força, apesar de ter dito sim a ele e à escada. O último degrau traria o conforto de casa. Tirei as chaves do bolso – com aquele chaveiro pesado demais, vou arranca-lo amanhã – e entrei. Tranquei a porta, liguei o chuveiro. Água*. Perguntei-me por um segundo como estaria Pilar, a do Saramago. Depois pensei no que ele estaria pensando no caminho de volta pra casa, ele que me deixou na escada e disse que se fosse assim, tudo bem. Era para eu ficar tranquilo porque suportaríamos. Mas eu já quase sentia o peso do Oceano Atlântico sobre os meus ombros quando ele partisse.
Como de costume me sentei no chão do banheiro e deixei a água escorrer um pouco pela minha nuca, pelas minhas costas. A dor na lombar aumentava. Pensei se sentiria mais dor quando tivesse definitivamente o oceano pairando sobre meus ombros, então saí do banho e me recusei a ler As Ondas antes de dormir.
Não tive sonhos e devo ter acordado dizendo graças a Deus por isso. Abri as janelas e também agradeci por não ter um apartamento com vista para o mar. Fiz meu café na esperança de que dessa vez fosse o melhor café, mas nunca seria, mas nunca desistiria de café. Fui trabalhar. Foi tranquilo e o único peso durante o dia foi o dos livros que eu carregava para lá e para cá. Graças a Deus, Deus, pelo trabalho. Decidi que escreveria um parágrafo sobre Deus quando chegasse em casa. Também troquei palavras com ele durante o dia, não com Deus, com ele que me telefonou pra saber se estava tudo bem. Estava funcionando na teoria, eu disse. Ele percebeu que na prática não era a mesma coisa, mas disfarçou e desligou.
Voltei para casa, escrevi o parágrafo. Inventei uma desculpa para que hoje ele não viesse - muito trabalho pra resolver em casa. Deitei no sofá e refleti mais uma vez sobre se estaria realmente tudo bem quando ele partisse. Estaria porque combinamos que estaria. Ser tão forte e grandioso quanto o Oceano que nos separa, ele disse. Porque se for assim, tudo bem. Como que pedindo por ajuda, peguei As Ondas.
No Domingo, fomos ao aeroporto.

* Dedicatória de Saramago em Caim (2009), “A Pilar, como se dissesse água”. 

14 de março de 2012

A grande luz

A língua sai de dentro da boca e toca o mínimo de prazer que existe na lágrima: o sal. Os olhos piscam. Estamos agora na cozinha, mas nossos pensamentos estão em algum lugar do passado, não sei ao certo o mês ou o ano. Estamos lavando, sim, as nossas almas, que deveriam ter permanecido intocadas. Não conseguimos.
Veja, ele diz. Ainda há beleza no sol. Eu permaneço de costas e já não sinto mais o gosto do sal. Estou e não estou aqui. Fico pensando no peso do meu corpo entrando no dele sem prazer, como se estivesse exorcizando todos os seus buracos das impurezas a que foram submetidos. Depois sim poderia acolhê-lo com certa piedade. Enquanto eu mesmo, que tive mais pesos e mais impurezas dentro e fora de mim, tremo. Sou uma besta. Quase sinto que vou tocá-lo.
Mas não. Não há beleza no teu sol, minha raiva sugere. Embora seu rosto apagado ainda irradie um fio de luz na linha dos olhos. Qual é o grande peso na consciência? O que nos impede da grande paz? A mim, não poder me desdobrar em dois para provar que sou melhor do que qualquer par que quisesse se aventurar e fazer sujeira no teu corpo, te fazendo orgulhoso de mais uma grande aventura. Aventura tem sido aceitar. Aventura seria você olhar, como fez aquele desconhecido se jubilando de prazer enquanto eu cavalgava um também desconhecido corpo rijo. Desafio-te. Aventura-te? Penso. E nada teria o gosto de vingança. Porque não somos capazes. Na realidade só temos implorado por certa alienação - que nunca virá.
Então decidimos que não há mais beleza no sol porque ele já se pôs e agora é a hora da lua. Esperaremos pela próxima grande luz. Não esperaremos? Os dias passam.

21 de fevereiro de 2012

Hiato

É preciso dar um tempo às letras. É preciso amadurecer
Enquanto a tinta dorme eu me refaço. Dentro da confusão de mil palavras, as frases precisam seguir num fluxo certo, embora difícil. 
Por isso espero. 
Vou digerindo, gerando sentido, até descer minha mão à pena. 
Porque somente assim há de ser escrito aquilo que precisa ser lido. Só assim serei capaz de dizer o que realmente precisa ser ouvido. 
Literatura é coisa séria. Um refluxo de palavras pode ser fatal.

.......

11 de janeiro de 2012

Interlúdio

As bocas unidas provocaram sensações físicas e espirituais, porém desta vez sem grilhões. O rosto redondo de Deus olhou, pela primeira vez na vida, em aprovação. Os pensamentos que se repetem se tornaram pensamentos novos que se repetem. O ar era místico. Posso entrar?, estranhos perguntaram, e eu disse sejam bem-vindos. Como num parto, o cordão umbilical que me ligava ao (a)feto de um mundo anterior rebentou em faíscas, mas eu não gritei. Os meus olhos se abriram e eu era todo carne, todo nervos e emitia pequenos sons de prazer. As entranhas da minha alma batiam palmas, rejubilando-se com o novo, com o mais vivo de mim mesmo: eu projetado na alma dos outros. De pequenos séculos in-teriores nascia a nova era. Partes de mim surgiam em outros braços, outras bocas, outros sexos. E de oração em oração eu só rezava para ser banhado pelo universo que era meu por direito, sem medo do pecado, sem medo da luxúria, sem medo da fartura. Eu voltei e era eu. Estou pleno.