13 de novembro de 2011

Dias vivos e mortos

Pense arduamente na beleza, digo a mim mesmo. Estrelinhas passeando pela minha mente, suaves e brancas. E a vida de repente se ajunta num monte de estrelinhas brancas formando um único branco, tão branco que cega à própria vida. Como se eu quisesse me anular, sentei à minha mesa de trabalho - confesso que um pouco cego - e me pus a pensar na beleza. Se a vida fosse mais leve... pois eu estou tão cansado.
Hoje me olhei no espelho e me achei demasiadamente bonito e cansado. Bonito exatamente pelo cansaço. Lembrei-me de uma vez em que fui capaz de escrever que o sofrimento me era belo, sem ter medo do quão dramático isso pudesse parecer. E hoje me pareceu mesmo. O que queria dizer na verdade era que o cansaço resultante de um sofrimento é que me era bonito. O ar um tanto pesado de quem já sofreu e tem a coragem de se olhar no espelho e dizer: sofri, sem as costas de uma das mãos se direcionando a testa; firme.
Se estou cansado de quê? É que sofro de dores de cabeça constantes. E também estou um pouco cansado de amor. Não do amor; de amor. Dele, ainda não... se é que um dia se cansa. Depois do amor, só consigo imaginar a morte. O tempo é longo, mas o percorremos numa velocidade suicida, e por esta estrada temporal é sempre o amor: na vida, na arte, na alma; é por amor ao trabalho, aos filhos, ao marido... É por amor que venho desarmado.
Estranho, mas hoje acordei sabendo que compreenderia o meu tamanho no mundo. As tais estrelinhas brancas da beleza poderiam muito bem representar o meu valor, tenho montes delas em mim. Eu não queria ter que falar de valores porque soa um tanto como autoajuda, porque estou um tanto carente. Mas prefiro ter uma ajuda de minha autoria do que ler esses livros chatos que estão no mercado; irritam-me profundamente. O fato é que eu preciso de um colo, mesmo que seja o meu. E nem tenho pena de mim por isso.
Agora peço perdão pela escrita um tanto fragmentada, é que vou escrevendo cada partezinha viva do texto de acordo com os meus dias vivos. E eles geralmente oscilam: dias vivos, dias mortos, vivo! morto! Aí fica essa coisa desconexa que eu tanto gosto (também compreendi que sou eu é quem tem que gostar ou não). Não sei escrever em dias mortos, porque como consequência eu fico morto também.
E olha que, apesar da dor e do cansaço, hoje é um dia vivo – eu vivo, o dia vive. Graças a Deus que tenho sede de acontecimentos e que sei separar os dias bons dos ruins sem perder um mínimo de suas essências. Só não vivo mesmo nos dias mortos. Sinto que este está quase morrendo. Vou aguardar então pela essência de um próximo.
Como viver na essência dos dias? É segredo meu e de quem vive.