25 de setembro de 2011

Do começo ao meio

Se Clarice disse que a vida começou com um sim, eu diria que todo relacionamento começou com uma cor; ele refletiu enquanto abria a porta. Ou com a junção de cores. Ou com um brilho. Mas ele sabia que, diferentemente da vida, um relacionamento começava com algo muito mais visível do que um sim.
O apartamento estava vazio e sem cor. Ou sem brilho. Ele ficaria até mais tarde no trabalho, pensou. Hoje era dia não? Não conseguia decorar quais eram os seus dias ruins. Enquanto ele próprio estava no trabalho, pensava sobre o sim que dá início à vida. Às vezes, tinha a impressão de que seu sim se encontrava pela metade. Ou nem ainda na metade. Dizer que sua vida já havia começado lhe soava prepotente (ou otimista?) demais. Para falar a verdade, era mais fácil se proteger sob a ideia de que sua vida estava apenas começando, ando, ando... Dava uma sensação de tempo maior até o verdadeiro start.
Ou não. Ou, ou, ou, ou, ou, ou, ou.
As cores são o começo de um relacionamento ou elas estão num relacionamento? Voltou a refletir, oscilando de uma cor para outra, de pensamento em pensamento. A ausência de cor e brilho em que se encontravam era o fim do começo, então. Entramos no meio, meu bem. Sorriu meio amargo.
Sentou-se no sofá e folheou mecanicamente uma revista. Ele estava no meio do meio. Fotos de famosos sem camisa, uma família na praia, propagandas, o telefone não tocava nunca. Tinha a teoria de que a segurança de um amor que está no começo provém da possibilidade de enxerga-lo quase que fisicamente no outro.
Mas e no meio? Ele gostaria tanto de explicar o meio! A substituição do começo pelo meio teria que trazer novas possibilidades.  Justo seria se, ao deixar de enxergar o amor, passasse a senti-lo com mais intensidade. E do meio para o fim... Do fim ele não sabia.
O telefone tocou, era mensagem. Oi, amor. O dia foi cheio, amor. Estou indo para a casa, amor. Me espere por lá, amor. Te amo, amor.
Ficou esperando o amor. Percebeu que estava de pé. Percebeu também que se protegia não somente na ideia do começo da vida, mas que vivia enrolado nas cobertas quentes do começo de um amor. E que ali viveria para sempre sem problemas.
Lembrava-se do gosto de qualquer coisa doce que havia no ar. Sentido no cheiro do outro, no toque do outro. Que dava vontade até mesmo de engolir o outro. Como éramos bonitos no começo! E idealizadores...
Porque acima de tudo havia um enamoro. E agora se encontravam apenas no namoro. O que não era de todo ruim, mas significava bem mais do que apenas uma letra a menos. Era esta a transição para o meio? A perda do e. E haveria mesmo somente um meio ou este era apenas o meio de número um? Vida maldita cheia de fases.
A porta se abriu. Ele chegou, graças a Deus. Percebeu que subitamente o apartamento se encheu com um mínimo de cor. Cor cansada e fraca, mas cor.
- O que você está fazendo aí no meio?
- No meio?
- É. No meio da sala. Bora trocar essa roupa. Hoje a gente janta fora.
Namorar sem o e não era assim tão ruim. Só era... menor.
Era apenas o começo da noite. Teria um meio. E o fim?
Do fim ele não sabia.