26 de junho de 2011

Duas verdades (sob dois olhos vermelhos)

Eu quero a porra da verdade.
Eu batia à sua porta com a vontade de gritar feito uma mulher escandalosa que quer a porra da verdade, mas não sabia como ser mulher, eu que era homem. Os nós dos dedos vermelhos, a boca amarga do porre barato do boteco. Eu escorria de chuva, tremia um pouco.
A porta se abriu, ou melhor, ele a abriu: lindo e tão grande e tão homem, eu sempre me surpreendia com o seu tamanho de homem, e ele disse oi, e eu sempre me surpreendia com a sua voz de criança indefesa - e ainda assim ele era uma besta.
Eu quero a porra da verdade.
Ele era uma besta. Sim, um demônio. Seus olhos vermelhos de diabo me fitaram mais alguns segundos antes de me mandarem entrar; impressionante como sua aura sombria me inspirava vontade de entrar, arriscar. Ele me enchia de amor e de ódio e de tesão (imperceptivelmente eu passei a língua pelos lábios secos), mas eu não entrei.
Porque eu queria era a porra da verdade, e então fui mulher: eu quero a porra da verdade!, mas depois de terminada a frase, eu percebi que a havia dito feito homem. Eu o amava mesmo como um homem.
Ele então sorriu, um sorriso de quem não tem o que dizer - em dois dias ele havia se tornado um cafajeste, dois dias, desde que saímos daquele bar brigados, é claro, e ele havia sido um cafajeste, mesmo tendo chorado – ele disse: entra.
E eu entrei, mesmo sem saber se deveria, porque das últimas vezes, o que significa um mês inteiro, eu só entrava para fazer amor com ele, no quarto, na sala, na cozinha, no chuveiro, e agora ele se encaminhava para a cozinha, nós adorávamos a cozinha. Ele abria a geladeira e pegava uma cerveja, e eu juro que não sabia o que fazer, porque eu só queria a porra da verdade, mesmo sabendo que depois de ouvir a porra da verdade eu acabaria transando com ele novamente.
Ele abriu a cerveja, me arrastou para a sala e só trouxe um copo. Encheu, bebeu de um gole. Ele era um homem, mas agora me encarava como qualquer outra coisa - bicho que não morde, talvez. Que quer carinho. Apesar de tudo, ele era mesmo indefeso.
Eu faço outras coisas. Homem grande, voz de menino. Aliás, eu vivo para os outros. Enche o copo, mais um gole. O que seria na realidade viver para mim mesmo. Larga o copo na mesa de centro. Eu não me importo com o que você pensa. Larga a garrafa na mesa de centro. E eu não vou foder somente com você. Costas das mãos pelos lábios molhados. Eu preciso dos outros, você entende? Mãos nos bolsos, queixo alto. O que significa que eu também preciso de você. Encara a janela da sala, me olha novamente. E se quiser viver de mim, você vai aguentar assim.
Enfim, a porra da verdade. Sorriu de olhos vermelhos. Mas eu sabia que dentro dos bolsos suas mãos tremiam.
Foi então que eu deixei de ser homem ou mulher. Foi aí que eu parei de pensar se deveria chorar ou sorrir, me esqueci. Esqueci da minha pele, porque esta de nada valia se não fosse tocada por ele - ele que escolhia também a minha pele. Necessitado. Gentil. E foi aí que eu cedi, submisso àquele que precisava de mim. Às duas verdades, enfim.

Precisava de mim, ele disse. E eu aguentaria assim. 

4 de junho de 2011

Antes de me conhecer (ou um dia de silêncio)

O homem acordou com o dia gritando sua existência no mundo. A janela do quarto era como uma boca aberta que dizia que era hora de ser gente. Levantou como zumbi, sem saber o que fazer com os movimentos matinais que sempre são meio tontos. Jogou bastante água na cara. Os olhos ainda vermelhos refletidos no espelho não disseram bom dia. A torneira, que a vida inteira insistiu em pingar três vezes mesmo depois de fechada, não pingou. Não existiu o barulho da água escorrendo pela garganta da pia. Foi aí que o homem percebeu que hoje o dia seria de silêncio. Mas silêncio incomum - seria um silêncio de pura solidão.
Haveria uma angústia? Sim, uma angústia tímida, ele diria. Houve um momento em que os olhos do homem ficaram perdidos pelo tempo curto de uma revelação, onde ele se via cercado de muito, muito ar. Mas depois disso houve um orgulho.
Aconteceu por causa do reconhecimento de que ar era matéria de coisa vazia, por ser invisível, mas era também matéria de coisa cheia, por possuir um peso. Eu tenho um peso, pensou o homem. Ele era invisível também.
Assim invisível continuou sua tarefa de ser gente que toma um café às pressas e corre para um trabalho que nunca quis como trabalho. Mas algo havia mudado porque não ligou o rádio do carro exatamente para não tê-lo como falsa companhia. Hoje ele queria abraçar a solidão criada pela pia que não mais pingava. Ele não queria pingar. É que eu sou um, pensava. Antes de ser eu e você, eu sou um. Uma unidade de um. Entende?, falava a um você tão invisível quanto ele.
Quando chegou ao trabalho não precisou se esconder para ter de evitar o cumprimento agitado das pessoas que passavam correndo para lá e para cá. Ele simplesmente atravessou o corredor e tinha um sorriso no rosto. As pessoas sorriam de volta, como se respeitassem sua quase invisibilidade. Um sorriso atravessando um corredor.
Trabalhou o mais sozinho quanto poderia. Hoje era feliz e só.  Mania besta de encarar a solidão somente como um sentimento ruim. Há uma solidão para cada situação, rimou divertido.
Não usou de seus papéis como companhia. Não conversou com o seu estresse. Nem assobiou. O silêncio se fundia ao que ele era – e ele era um. Porque hoje sua solidão seria de um egoísmo só seu, assim tão redundante que o engoliria.
E também decidiu no caminho de volta para casa que sua solidão seria da mais pura alegria do ser humano. Não ligaria para ninguém. Não dividiria o seu amor. Usaria do seu próprio colo que por muitas vezes foi divã dos amigos, dos amores. Captaria todo o seu ar e se reconheceria como alguém que sobrevive independente das outras sobrevivências. Pelo tempo que aguentasse – e havia um tempo mínimo de aguentar.
Sim, ele precisaria de um você a quem se apegar a qualquer momento. Mas é que hoje ele saberia controlar o seu eco pelo espaço. Não pingaria três vezes. Nem duas. Uma.
Ele teria a força de ser o melhor você a quem se apegar. Pelo tempo que aguentasse.
Era tempo de aguentar.

* Primeiro eu escrevi. Depois eu descobri o significado. Eu te amo, solitário. Eu te salvo.