25 de maio de 2011

De manhã

Estavam deitados, abraçados.

- Me protege.
- Do que?
- Dos meus medos.
- Do que você tem medo?
- Às vezes eu tenho medo do amor, de Deus, das coisas infinitas.

Ele pensa um segundo, suspira.

- Mas aí teremos uma controvérsia.
-Qual?
- Eu só saberei te proteger sendo o seu amor, o seu Deus, sendo infinito pra você.
- Hm, eu entendo.
- Entende?
- O amor é mesmo sem-vergonha.

Ele sorri.

- É. O amor é mesmo sem-vergonha. Me protege?
- Do que?
- Da sua beleza.
- Aí temos outra controvérsia, eu não sou bonito.
- É sim. Você tá ficando cada dia mais lindo, mais meu.
- E isso te dá medo por quê?
- Porque quanto mais meu, mais vai doer se você desaparecer.

Ele suspira um medo.

- É isso o que acontece com todos os amores do mudo? Desaparecem?
- Parece que tem um cartaz de ‘’procura-se’’ em toda esquina da cidade.
- É bem verdade...

Silêncio.

- Já sei. Então vamos fazer uma oração.
- Pra quê?
- Pra gente desaparecer junto, ir para a mesma outra dimensão.
- Outra dimensão... dos amores esquecidos?
- Não, não. Dos amores infinitos.
- Ah. Tá. Então começa você.
- Começo. É assim.
............................................... .

- Amém?
- Amém.

“Meu amor... essa é a última oração... pra salvar seu coração...” *

* Trecho de Oração, A banda mais bonita da cidade.

** Pensa em alguém que te faz suspirar a cada segundo. Pensa em muitas referências literárias numa conversa cheia de desejo envolvido. Pensa em saudade/vontade (deve ser tudo a mesma coisa). E pensa n’A Banda Mais Bonita Da Cidade, com essa música lindíssima. Pensa em nós dois, leitores. 

19 de maio de 2011

Labirintro

Paro, penso – sonho. É um sonho. Repito: é um sonho-sonho, e ouço vozes que repetem: um sonho, dois sonhos, três sonhos... Movimentos de cabeças e uns corredores: largos, intocáveis, cheios de – corredores outros.
Percorro caminhos sem rotas. Ocorre também uma dor que corre no peito e sufoca. Luzes saindo das bocas desconhecidas dos que me fitam e gritam: desconhecido! Não pode ultrapassar nossos caminhos, aqui não há caminhos!
Luzes vermelhas, não são de sangue, mas são vermelhas e vindas do infinito. Labirinto.
Corro, grito por socorro, e há um gozo, tímido, mas há um gozo. Estou perdido entre tantos perdidos - que me fitam. Meus olhos são os únicos que não fitam, medroso, medroso!, mãos que tremem sem motivo, minhas mãos me são desconhecidas. Todos olham, quem me olha? Quem vem, se vem, me resgatar do infinito?
Luzes de um infinito-intro. Mais que intro, entre o intro. Labirintro?
Ah, as luzes me cegam, me cegam, ah, eu preciso existir. Ah, ah. Há um baque. Um momento de vazio barulhento e depois silêncio, o silêncio.
Paro. 
Pisco. Acordo. Grito.

Eu sou eu?

* Escrito no dia 5 de abril de 2011. Fase ruim de escrever... amo vocês que me leem.