19 de abril de 2011

Uma oração

Eu juro, ao menos pelo tempo da eternidade, não te desejar. Juro não mais te abraçar ou te beijar. Eu juro pelo juramento divino: entender o meu lugar, assim sozinho no mundo, e nem por isso ser infeliz. Eu juro por tudo aquilo que prometi e não cumpri – e assumo hoje também todas as promessas mal pagas do mundo. Porque hoje eu tenho a força de assumir a culpa do mundo.
Hoje eu quero um ontem e um amanhã condensados num único estado de espírito: o hoje. Porque hoje eu sou a maior prova de que o auto-controle é também o auto-descontrole mais que necessário para todos de condição humana. Hoje eu sou eu nas minhas maiores falhas e juro por estas mesmas falhas errar, errar – um erro sempre certo. Hoje eu sei que posso dizer de boca escancarada: eu te amo, mas aceito o não-amor que tu tens para me oferecer. E serei feliz pelo sim que dou ao teu não.
Hoje o meu falso juramento é da mais concreta verdade, forjada tão perfeitamente que se tornou a própria verdade. Hoje eu sou aquele que pode tudo. Eu tenho a chave do universo numa das mãos e a outra livre para pegar, para bater, para tocar. Hoje eu sou um hoje, até que meu amanhã se torne um hoje . E hoje eu desconhecerei o ontem, porque o ontem já teve sua beleza desmascarada, pois era um ontem.
E eu juro por eu mesmo. E também juro por você que me ensinou a jurar e a rezar. Eu juro pelo tempo curto de um orgasmo que vale pelo tempo infinito de um para sempre. Eu juro conseguir existir sem você - aliás, quero que saiba: eu tenho existido.
Eu existo hoje. Existo com a força de uma escolha ruim, mas ainda hoje. E juro tudo isso com a força de uma oração e de um amém para que eu me mantenha firme. Mantenha-me firme.

(um amém)

* Acho que eu não sei não escrever esquisito. Mas que fique claro: eu não escrevo para que ninguém entenda. Porque muitas vezes nem eu entendo. O importante é que “chegue” em vocês de alguma forma. Com ou sem entendimento. Amo vocês que me leem. 

11 de abril de 2011

O lar das coisas que voam

Nada mais faz sentido, eu não sei pertencer. Eu, logo eu que costumava ser eu mesmo uma, duas, sete vezes, hoje não sei nem da metade daquilo que fui. Fui? Não sou, fui e quero poder ser, mas como? se me pego apegado às repetições, ah, as repetições, as repetições.
Eu te falei. Há uma linha reta, o meu gráfico estável, sempre repetindo os pontos de altitude anteriores. Eu que sempre vivi em desordem, hoje abomino essa gaveta organizada que me tornei. Não suporto a estabilidade que nem sequer é falsa, inventada. Antes fosse, antes fosse...
E antes eu fosse eu, se o soubesse ser novamente. Antes eu fosse o fluxo de energia que move o mundo, pois me sentia assim: o fluxo que move o mundo. O problema é que meu mundo era eu e eu – e agora é como se estivesse fora dele: então onde estou?
Se eu olhar para os lados, reconhecerei fisicamente todos os lugares em que passei. O meu corpo-matéria reconhece a pseudo-vida de tudo que brilha por aqui. Mas não, o meu estrangeirismo me é de alma. Ela grita de pavor, que lugar é esse, que lugar é esse. O aqui do meu corpo não pode ser o aqui da minha alma. É exatamente o não pertencer de alma que me faz dolorido.
Ah, tantas dores, tantas e atingem o inatingível que é o exterior a mim. É como se as pessoas ao meu redor não suportassem o ardor de uma alma que está prestes a sair das pontas dos dedos: quero ser livre, quero ser livre – preciso pertencer.
E de repente, mas de repente: há a consciência de que o seu pertencer é exatamente o oposto. Como se o maior desejo do meu interior fosse ser desterrado do próprio corpo, finalmente livre para poder vagar – a palavra é vagar – pela ausência de espaço existente num não-mundo qualquer, e eu, o eu-físico, pudesse finalmente pertencer à massa de carne que povoa a Terra, o mundo mudo dos seres cheios de matéria de tudo-o-que-é-palpável e igual igual igual. Sim, sim, e de repente, mas de repente. Sim. O não pertencer é o lar das coisas que voam. 

2 de abril de 2011

Vermelho

Acordei cheio de um tom azul – vivo pela primeira vez na vida. A cabeça vazia de pensamentos, o corpo leve apesar da tristeza de toneladas dos dias passados. Eu não entendia.
Ergui-me e após o ritual matinal, pus-me a caminhar pelos jardins de uma vizinhança imaginária. A vida toda sonhei com jardins vizinhos. Nunca gostei da paisagem ruim dos lugares onde morei – toda casa de verdade deveria ter um jardim, de forma que, na minha mente, montei cada flor de acordo com seu dono. A minha era azul.
Eu andava, andava. A força do meu pensamento é estranhamente movida a passos. É assim que organizo a minha vida: andando. Mas exatamente hoje eu não pensava. Eu usava o mecânico do andar para andar, e era guiado por uma energia que se desprendia de mim, ao mesmo tempo em que me puxava em sua direção.
Minha mente era uma linha reta, mas meu corpo não podia deixar de estranhar uma leveza súbita, depois de uma fase ruim, de peso.
Confesso, tenho sido uma pessoa triste. Tenho sido maltratado pelas minhas próprias lágrimas provocadas. É tão raro me ver chorar, que quando acontece, as lágrimas saem gordas e deixam marcas. Riscos vermelhos que vão dos olhos à boca. E não há maquiagem que engane minha tristeza solitária.
E simplesmente um dia eu acordo todo azul. Um azul sem sorrisos, mas alegre. Eu acordo já “epifanado”, se é que isso existe, sem o ato da transformação do triste para o alegre.
Há de se entender que existe aí um processo biologicamente acontecido durante o sono? Ou durante a embriaguez das lágrimas ácidas? Ou não houve nada. A única certeza é que de triste eu virei azul. Como?
No caminho de volta para casa eu entrei sem sorrir, mas azul. O que me intrigava era o fato de saber que não havia felicidade, não. Mas então, o que havia eu feito de toda minha tristeza?
Coloquei uma música boa para ouvir, tomei um café propositalmente doce e me dentei por cinco minutos. Quando me virei na cama, notei um canhoto em cima do criado mudo, escrito num vermelho reforçado várias vezes.

“A tristeza vai ter de ser azul.”

Ontem.
Então eu ainda sou triste, pensei. E minha alegria é a tristeza - quando ela é azul. Eu inconscientemente provoquei o meu dia azul.

... Eis o poder do vermelho.

* Fácil, pragmático. Diferente de tudo que já fiz, acho. Espero que gostem... amo vocês que me leem.