27 de março de 2011

Sobre teu brilho de artifício

Eu me sentei – escrivaninha, papel e caneta à minha frente – e comecei a escrever compulsivamente o teu nome. Devo mencionar que a caneta era de um dourado mais dourado do mundo, assim como sua tinta. As letras saiam gordas e carregadas de um brilho tão intenso, de cegar os olhos.
Você sempre me passou a sensação de brilho. Talvez seja pelo fato de tanto te ouvir cantar aquela música que hoje me faz lembrar você – infernalmente. Aquela que diz que você só tem de acender a sua luz... e deixá-la brilhar.
O que sei é que no fim, três folhas foram preenchidas com o teu nome completo, frente e verso, sem vírgula, sem ponto final, somente teu nome infinitas vezes. Durante o transe, eu tinha a certeza de que as palavras se transformariam em fogos de artifício – representações de você - mais brilhantes e coloridos ainda. Sentia até uma dor imaginária no pescoço de tanto levantar a cabeça e assistir ao show que era você explodindo em luzes, como se cada partezinha da tua essência fosse um átomo responsável pela iluminação da terra.
É estranho observar o mundo após o transe. É triste e sem cor, tão sem cor feito uma decepção acontecida no escuro. Acontece que passei o dedo pela primeira letra da primeira folha e o dourado molhado passou a ser um amarelo mal definido, um brilho disperso e fraco. Passou para a segunda letra, o segundo nome, a segunda folha. Percebi que não havia como tê-las comigo, levá-las comigo. De tanto manuseá-las, elas se tornariam feias. Elas se tornariam – elas mesmas? Letras apagadas.
E se eu manuseasse você? Aconteceria o mesmo, de certo. Teu brilho se revelaria uma maquiagem falsa. Teu encanto seria dissolvido na primeira tentativa de explosão maior. Teus olhos se tornariam estáticos e você seria incapaz de fixá-los nos meus, conscientemente. E então a melhor coisa a fazer seria observar os teus fogos de artifício de longe, bem de longe. Para não me queimar. Ter uma desconfiança que leva à segurança.
É triste ter o reconhecimento de que tua luz é toda barata. É triste e difícil chegar a uma conclusão: não acreditar no brilho das pessoas. Não ter a infantilidade de se dominar feito criança por pontinhos de luz no espaço sideral.
Mais difícil ainda é tomar uma decisão. Agir. Fugir do teu brilho e da tua música.
Aliás, está mais para minha música. 

Pois quem se sente um castelo de cartas a um simples sopro de desmoronar, sou eu.


* Levemente inspirado na música que mais tenho ouvido em minha mente nos últimos dias. E não na voz de sua cantora original.
** A viagem à NYC foi linda! Em breve, texto sobre ela. Beijos! Amo vocês que me leem. 

13 de março de 2011

De mansinho

Tenho dias de dramas profundos. Dias de uma sensibilidade cuja espessura é o invisível. Como hoje: estou à beira, querendo olhos de ódio voltados a mim. Querendo a dor de ser pisoteado e jogado aos leões desse festival de sangue que é estar à deriva das vontades dos deuses injustos dos amores. Não que eu seja dos extremos - sempre fui brando. Mas hoje eu quereria um mínimo de rudeza. Um mínimo de não indiferença.
É que eu tenho vivido na sua indiferença. Sei que errei na mania besta de sentir tudo inesperada e incontrolavelmente. De amar imensamente as pessoas tão repentinamente. Acontece que eu pareço ser sugado pelo mínimo de essência boa que existe nelas e caio lentamente num precipício de sensações onde cada sinal é sinal de amor, cada casualidade é algo apaixonante e cada olhar cansado é um afeto despercebido pelos olhos comuns.
Não que o meu amor seja fácil, mas meu coração e minha alma captam tão rapidamente tudo o que há de belo, que não consigo evitar um acesso de amor repentino e na maioria das vezes não compreendido. E quando digo belo, falo sobre a beleza das pequenas imperfeições. Eu que sou encantado pelas (suas) falhas...
E aí surge aos poucos uma melancolia tão mansa que me faz tremer de medo do invisível, do intocável que é o espaço entre o amor e o ódio, o equilíbrio chato que é o cerne dos domingos. Você e seu equilíbrio, causador do meu desequilíbrio. Você e sua pompa de esfinge, decifra-me ou devoro-te; mas você esqueceu do principal que era me lançar o desafio.
Então eu me perco. Fico de olhos fechados captando existências de você no universo que todos têm na escuridão das pálpebras cerradas. Os pontinhos rodando e brilhando timidamente, pequenos pedaços de essências de todos os tipos.  É uma vivência de triste alegria, adentrar este universo. Alegro-me tanto com a falsa realidade que logo fico triste por haver a palavra “falsa” antes de “realidade” e por esta ser minha condição de verdade. Mas é o mínimo de desequilíbrio a que posso chegar já que não há mais você a meu redor.
E chego a momentos de extrema solidão, onde escrevo à vontade o teu nome, sem me envergonhar do que possam perguntar. Como se seu nome saindo de dentro de mim fosse uma forma de te expurgar, te expulsar. Um ato falho que alivia.
E enquanto vou me lembrando dos segundos de olhares tímidos e carícias sob disfarces, como quando fingia arrumar seu cabelo; quando me lembro das pontas dos nossos dedos se encontrando a cada troca de bebidas, acontece um riso em mim de quase alegria. E depois vou me lembrando do peso dos morros que subimos e da redoma de vidro que repentinamente nos envolvera. É neste ponto que acontece uma tristeza e me arrependo do que escrevi no último desses dias que venho me lembrando incansavelmente, sufocantemente.
Eu escrevi: “Não precisa ter medo. Eu saberia te amar em silêncio e de mansinho.

Estou cumprindo.

* Talvez só escreva novamente quando voltar de NYC. Desejem-me sorte. Amo vocês que me leem. 

9 de março de 2011

Anotações de um carnaval cheio de tristes alegrias

Pra fazer um samba com beleza/É preciso um bocado de tristeza/Senão não se faz um samba não. (Vinicius)

Há tempos eu não viajava. Não que a vida agitada me impedisse, mas simplesmente por falta de vontade. Decidi então, de última hora, me dar uma chance. Decidi que iria para qualquer lugar que me proporcionasse alguma vivência digna de nota, por mínima que fosse. E logo eu que sempre fui o rei das expectativas, fiz um juramento: iria desarmado. Pelo menos desta vez eu estaria à deriva.
A data é das boas: carnaval. Pessoas pulando, cantando, bebendo, fumando, beijando – fugindo de uma realidade cheia de rotinas tediosas. Fiz várias anotações, mas não vou narrar fisicamente meus dias de folia. Não quero me ater a nenhum fato orgânico. Sendo um escritor cujos respeitáveis leitores já conhecem um pouco da essência, descreverei tudo o que houve de perceptível à minha alma aguçada – e somente a ela. Tudo o que pude perceber de fantástico nas coisas mais comuns e simples.
Para não confundi-los, escolhi uma estrutura de tópicos que podem ou não ter ligações entre si. Não estão organizados conforme a ordem que me ocorreram, anotei cada um no primeiro papel que me aparecia nas mãos, de forma que não me recordo da cronologia das coisas. E se tratando de coisas abstratas, de que serviria a cronologia delas? Aqui estão:

- Você encontra pessoas cheias de luz. Amigos instantâneos. Amigos de três ou quatro dias, que podem ou não permanecer mais tempo na sua vida. Independente disso, amigos.

- Hoje eu tive a experiência do pré-amor. Acontece quando inocentemente, numa troca de bebidas, as pontas dos dedos dos dois embriagados se encontram e dançam suavemente por frações de segundo. Nasce então a primeira faísca de um amor azul.

- Eu falo tanto de impulsos que me sinto um mentiroso. Não sigo metade deles na vida real. Prova disso é esta indecisão do segundo dia. Esse ato incansável de esperar pelo primeiro movimento. Quando serei capaz de começá-lo?

- Se somos tão parecidos nas nossas materialidades, por que não investigar a semelhança de nossas almas?

- Carnaval e flerte combinam tanto que temos de deixar todo tipo de amor de lado. Na quarta-feira de cinzas eu direi perdoa-me, Senhor, eu amei.

- Meus sentimentos são tão infantis. Atingem o ápice em segundos de nada. Dias vividos à flor da pele.

- Os dias para pensar. As noites para beber. Exatamente pra não ter de pensar – mais. Para compensar toda essa pensação dispersa à claridade dos dias.

- Uma anotação removida pelo autor.

- Estou tendo a esperança de que assim como todo carnaval tem seu fim, você e seu encanto também terão.

- O riso coletivo gera milagres. 

Ninguém seria capaz de enxergar tais coisas descritas acima nesses dias de festa (se alguém enxergou, me avise!). Mas eu juro que senti todas elas. Essa mania de ser poeta em todas as situações da vida... Foi tudo muito bom, apesar dos leves pesares. O importante é que a missão foi cumprida. A rotina dos dias anteriores estava me deixando emocionalmente estável. A sensibilidade foi se perdendo. Consegui tocá-la novamente pela viagem. Deus sabe o que faz.

Uma breve anotação pós-carnaval:

Evitar.

* Muito tempo sem postar! Precisava tanto dessa viagem! Foi uma delícia. Agradeço todos que fizeram parte dela, sem exceção. Vocês foram lindos! E aos leitores, espero que aproveitem alguma coisa... amo vocês que me lêem. Beijos!