22 de janeiro de 2011

Página-espelho (o segredo da criação)

Mãos vazias de inspiração. A técnica é antiga: escrever escrever escrever sem rumo. E depois a surpresa. Os olhos percorrendo linhas de um intimismo gritante e que não fazem sentido nem mesmo no não-sentido da coisa (e porque por um segundo eu não quis mesmo entender). Eu que sempre fui poeta de não se apegar demais aos sentidos... eu entendi.
E me importei. Mas hoje eu me importei com aquilo que vocês, amados (e por instantes odiados) leitores lêem. De repente eu olho para a página-espelho e encontro-me nu perante um mundo de olhos sedentos não por minha imagem, mas por minha alma; letras costuradas umas nas outras, formando a minha existência quase que hermética. Eu, indefeso.
Então eu quis me trancar num mundo meu onde não houvesse leitores. O pensamento no óbvio: por que insistir em escrever sobre o meu óbvio que para os outros é loucura? Pudera eu escrever historinhas de ninar, de começo meio e fim, afinal, qual o meu problema com o era uma vez? - mas não, eu transcrevo minha alma. Eu sou carimbo estampado na folha branca. E aí eu mesmo me condeno à fogueira, me revelo bruxo à chamada civilização, me faço visível ao mundo dos corretos. E o que é pior: acabo pedindo perdão.
Perdão, Deus, por expor minhas querências infantis e febris – e impossíveis. Perdão por revelar o segredo de sua criação: uma criatura de várias faces e com a capacidade para o sombrio que é ser o que se é: o inferno do viver por inteiro. Perdão por eu ser tão eu.
Pela primeira vez eu tive vergonha das linhas que nasceram daqui. Eu quis me cobrir de poesia boba e enganar aqueles que me viam e tinham medo. Mas era tarde. Já via os olhos daqueles que me liam; a boca espumante numa visão dos infernos: arrancavam os cabelos por eu ter revelado o segredo da existência humana: somos feitos de sentimentos, e estes são de sangue! Por Deus, são feitos de sangue.
Talvez tenha sido a primeira vez que li com olhos humanos a minha própria escrita de sangue. Aquilo que eu sou de verdade: uma alma corrompida pelo pecado de tentar ser gente que sabe que é feita de sangue. Eu reconheci que hoje sou o aquilo que fui outrora: a vontade de ser de verdade. E acabo que não sou ninguém para os alguéns normais.
Eu fui roubado do meu quarto, entregue ao mundo. Eu me condenei, Deus, pelas minhas palavras eu me condenei. Salva-me. Dê-me a chance do era uma vez. Dê-me a identidade aceita pelo mundo – aquela falsa. Eu não sei mais ser o eu do mundo, porque não consigo sair de minha essência verdadeira – ora, se tudo precisa de essência para se ser algo, o que serei eu se não posso com a minha? Se minha essência é meu feitiço. E que mata o mundo.
Veja estes olhos abertos de incompreensão, veja a aberração que me tornei por só saber ser eu. Eu preciso deixar de ser eu. Eu preciso contar histórias direitas ao mundo.

Era uma vez, era uma vez, era uma vez, era uma vez, era uma vez, era uma vez, era uma vez, ...

Era uma vez eu.

* Texto fácil e difícil de nascer, ao mesmo tempo. Não se atenham ao entendimento da coisa. Se puderem sentir algo, eu já ficaria muito feliz. Desculpem a demora para um novo post, dessa vez, confesso que fui atingido pela falta de inspiração. Enfim, amo vocês que me lêem. Beijos!

7 de janeiro de 2011

No quarto (que amanhã eu me encontre)

Há a luz da luminária. Escura, de um amarelo morno e frouxo, se esforçando para iluminar o quarto. Há a caneta, o papel e eu. Esta é a rotina do poeta triste que me tornei. À espera da noite desde o primeiro segundo do dia. É que tenho me privado de mim mesmo. Eu estou sendo impedido de mim, perdi meu insight. Antes eu era a minha viagem intelectual e agora sou barrado pelos meus próprios devaneios. Sou uma barreira intransponível, de segurança máxima de mim mesmo e só sei escrever sobre o agora de minha existência que me
Acabou a tinta da caneta (mas eu troquei). Devo encarar como um ato divino, um sinal de que é tempo de parar de remoer as coisas da vida colocando-as no papel? Deve ser uma tentativa do Criador de poupar meu sangue. Deus sabe que escrever é algo como usar do próprio sangue como tinta de caneta (eu troquei de caneta, e meu sangue?). E, ironicamente ou não, só escrevo de vermelho. 
Eu falo da escrita em si, mas percebendo que estou no caminho errado, uma vez que queria falar de minha ausência. Isto prova como estou distante de mim. Não consigo abrir a mente e viajar nela como o fazia antes. Não consigo iniciar um texto com eu sou assim, porque eu não sei mais o significado do meu assim. Eu me tornei eterna pergunta, mistério, como o da santíssima trindade que todos conhecem, mas não são capazes de decifrá-lo. Não tenho nem mais o direito de dizer que sou um nada, pois um nada tem mais forma do que eu.
Mas eu devo existir. Eu sinto a luz morna da luminária – ainda. Talvez o amarelo não seja tão frouxo assim. Talvez eu esteja me privando de enxergar as cores também, de modo que nada mais é tão bonito quanto era antes – enquanto eu vivia para o mundo. Porque eu era todo do mundo, e o mundo só sabia me ser. E sorrir assim, feliz por eu e ele sermos a mesma coisa. O mundo para mim era cor, e eu não tinha tempo de dormir. Eu era acordado, ad eternum
Mas as coisas mudaram. Eu percebo porque hoje eu digo coisas como “está tarde”. Eu percebo porque sorrir dói. Eu percebo porque o mundo é estrangeiro para mim. Porque os raios de sol entrando pelas janelas me incomodam – eu as fecho. Sinto-me um estrangeiro de minha própria espécie e...
Está tarde. Olhei para o relógio: são oito horas da noite e está tarde. A noite sabe me avisar quando está chegando. As janelas começam a bater e o vento diz que não adianta eu insistir em mim mesmo: está tarde. Eu vou parando de escrever porque a luz da luminária quer ser desligada – ela também percebe a noite, tão minha ela se tornou.
Não há mais a luz da luminária, escrevo torto. Haveria a luz da lua, mas não gosto dela, janela está fechada. Não há o amarelo frouxo, a caneta e o papel. Foram engolidos, sim. Agora há o escuro e o quadrado do meu quarto que já não me é familiar, vejam – eu sou o quarto. E há a missão que não foi cumprida, a de compreender esta ausência de alma em mim. Então vou me deitar e rezar um pouco, bem pouco. Eu termino as orações com um que amanhã eu me encontre - amém dito às pressas e já é o suficiente. E digo boa noite para não sei quem. Sem resposta.

Mais um dia, meu Deus.

1 de janeiro de 2011

O esperador

Estava num de meus passeios sem destino certo, caminhando com a intenção de apenas caminhar, sem o intuito das reflexões matinais que tanto me ocorrem, quando me deparei com uma cena um tanto interessante: havia um menino debruçado na janela do número 22.
Era um menino de seus dezesseis anos, magro, de cabelos bem lisos e bem negros, a pele um tanto branca demais e os olhos de uma cor impossível de se enxergar devido à distância que me encontrava (perdoem minha miopia, leitores). Eu sei que ele assumia desesperadamente seu posto de esperador. Sim, esperador. Ora, minha miopia não afeta o meu bom senso, e se eu digo que sei, é porque sei.
Eu estava do outro lado da rua, apoiado numa árvore que ficava do lado esquerdo do número 22. O menino não me olhava, acredito que porque sou discreto demais, mas se eu me demorasse mais um segundo ali, estático como estava, os vizinhos e as senhoras que voltavam do mercado próximo me considerariam, sendo bem otimista, um louco varrido, para não dizer o maníaco do parque.
De qualquer forma, era uma cena encantadora e um tanto aflitiva de se ver. E um tanto perigosa, eu sabia. Resisti inúmeras vezes ao impulso de gritar saia daí, menino! você vai sofrer nas mãos da sociedade!
Sim, eu sabia do perigo. Primeiro, por ele ser um menino. A literatura está acostumada a falar de donzelas esperando pelo seus príncipes encantados nas janelas da torre, do prédio, do apartamento ou do cortiço mais altas – mas são donzelas. Além disso, um menino daquela idade não podia ficar ali o dia inteiro (ah, é outra coisa que eu sei, ele ficaria ali os dias inteiros), pois deveria estar na escola ou, se estudasse de tarde, estar dormindo feito adolescente que dorme tarde e acorda mais tarde ainda.
Não gritei, como sabem. A única coisa que fiz foi desencostar da árvore e torcer para que pelo menos por um segundo nossos olhares se cruzassem. A cena era de uma pureza tão arrebatadora que gostaria que ele soubesse que eu compartilhava daquele momento sublime de espera tediosa. Não aconteceu. E, pensando agora sobre isto, nem poderia acontecer, pois seria de um egoísmo desumano de minha parte tirá-lo do seu posto oficial por uma distração.
A pergunta que fica é: esperava pelo quê? Esta é a única coisa que eu não sei da história toda, leitores, me desculpem. Mas eu tenho um palpite que me agrada. Ele tinha a missão inconsciente de provocar a inspiração alheia. Ele esperava por alguém que o eternizasse na poesia como o único homem a esperar numa janela. Nada é por acaso. Deus sabe o que faz.

* Isso é 2011, minha gente. Reservei algo diferente do habitual para começar o ano. Não que minha essência não esteja no texto – esta continuara para sempre. Mas quis me aventurar numa escrita nova. Espero que gostem, de coração. E espero o comentário sincero de vocês que me leem de verdade. Luz para todos nós, sempre. Beijos!