13 de novembro de 2011

Dias vivos e mortos

Pense arduamente na beleza, digo a mim mesmo. Estrelinhas passeando pela minha mente, suaves e brancas. E a vida de repente se ajunta num monte de estrelinhas brancas formando um único branco, tão branco que cega à própria vida. Como se eu quisesse me anular, sentei à minha mesa de trabalho - confesso que um pouco cego - e me pus a pensar na beleza. Se a vida fosse mais leve... pois eu estou tão cansado.
Hoje me olhei no espelho e me achei demasiadamente bonito e cansado. Bonito exatamente pelo cansaço. Lembrei-me de uma vez em que fui capaz de escrever que o sofrimento me era belo, sem ter medo do quão dramático isso pudesse parecer. E hoje me pareceu mesmo. O que queria dizer na verdade era que o cansaço resultante de um sofrimento é que me era bonito. O ar um tanto pesado de quem já sofreu e tem a coragem de se olhar no espelho e dizer: sofri, sem as costas de uma das mãos se direcionando a testa; firme.
Se estou cansado de quê? É que sofro de dores de cabeça constantes. E também estou um pouco cansado de amor. Não do amor; de amor. Dele, ainda não... se é que um dia se cansa. Depois do amor, só consigo imaginar a morte. O tempo é longo, mas o percorremos numa velocidade suicida, e por esta estrada temporal é sempre o amor: na vida, na arte, na alma; é por amor ao trabalho, aos filhos, ao marido... É por amor que venho desarmado.
Estranho, mas hoje acordei sabendo que compreenderia o meu tamanho no mundo. As tais estrelinhas brancas da beleza poderiam muito bem representar o meu valor, tenho montes delas em mim. Eu não queria ter que falar de valores porque soa um tanto como autoajuda, porque estou um tanto carente. Mas prefiro ter uma ajuda de minha autoria do que ler esses livros chatos que estão no mercado; irritam-me profundamente. O fato é que eu preciso de um colo, mesmo que seja o meu. E nem tenho pena de mim por isso.
Agora peço perdão pela escrita um tanto fragmentada, é que vou escrevendo cada partezinha viva do texto de acordo com os meus dias vivos. E eles geralmente oscilam: dias vivos, dias mortos, vivo! morto! Aí fica essa coisa desconexa que eu tanto gosto (também compreendi que sou eu é quem tem que gostar ou não). Não sei escrever em dias mortos, porque como consequência eu fico morto também.
E olha que, apesar da dor e do cansaço, hoje é um dia vivo – eu vivo, o dia vive. Graças a Deus que tenho sede de acontecimentos e que sei separar os dias bons dos ruins sem perder um mínimo de suas essências. Só não vivo mesmo nos dias mortos. Sinto que este está quase morrendo. Vou aguardar então pela essência de um próximo.
Como viver na essência dos dias? É segredo meu e de quem vive. 

25 de outubro de 2011

Gota a gota - um mar

O botão de pausa que tanto me apetecia. Assim olhando, julgando, parecia fácil de acha-lo no outro. Ansiava por tê-lo tão localizável em mim também. O esquecimento, o esquecimento... Leva com o mar, leva. Tudo. Jogar sal no mar é muito mais vantajoso que coloca-lo num copo só com um pouco de água. No mar não há vestígios. E Deus, que me deu um copo de água, enquanto a você ele pareceu ter dado o mar... Um lar pros teus esquecimentos. Não altera mesmo o curso da vida: leva para o mar nossos momentos. Joga tudo, todo o sal.

***


E, subitamente, a sensação física das coisas que vivemos vai desaparecendo. Deitado um dia desses, fingindo te abraçar, notei ter me esquecido da textura da sua pele, me desesperei. Eu não vim ao mundo para ter as coisas que vivi sob uma redoma de vidro em que eu toco o vidro e só posso sentir sua superfície fria. Onde foi parar o gosto de sal? Onde foi parar o gosto do teu sal na minha boca? Escorrendo...
Assim como o tempo.
Saudade ainda grita por todos os poros, mas o amor escorre por eles também. E um dia acaba. 
Gota a gota, Deus vai me transformando num mar. E o teu sal vai se dissolvendo nele.

25 de setembro de 2011

Do começo ao meio

Se Clarice disse que a vida começou com um sim, eu diria que todo relacionamento começou com uma cor; ele refletiu enquanto abria a porta. Ou com a junção de cores. Ou com um brilho. Mas ele sabia que, diferentemente da vida, um relacionamento começava com algo muito mais visível do que um sim.
O apartamento estava vazio e sem cor. Ou sem brilho. Ele ficaria até mais tarde no trabalho, pensou. Hoje era dia não? Não conseguia decorar quais eram os seus dias ruins. Enquanto ele próprio estava no trabalho, pensava sobre o sim que dá início à vida. Às vezes, tinha a impressão de que seu sim se encontrava pela metade. Ou nem ainda na metade. Dizer que sua vida já havia começado lhe soava prepotente (ou otimista?) demais. Para falar a verdade, era mais fácil se proteger sob a ideia de que sua vida estava apenas começando, ando, ando... Dava uma sensação de tempo maior até o verdadeiro start.
Ou não. Ou, ou, ou, ou, ou, ou, ou.
As cores são o começo de um relacionamento ou elas estão num relacionamento? Voltou a refletir, oscilando de uma cor para outra, de pensamento em pensamento. A ausência de cor e brilho em que se encontravam era o fim do começo, então. Entramos no meio, meu bem. Sorriu meio amargo.
Sentou-se no sofá e folheou mecanicamente uma revista. Ele estava no meio do meio. Fotos de famosos sem camisa, uma família na praia, propagandas, o telefone não tocava nunca. Tinha a teoria de que a segurança de um amor que está no começo provém da possibilidade de enxerga-lo quase que fisicamente no outro.
Mas e no meio? Ele gostaria tanto de explicar o meio! A substituição do começo pelo meio teria que trazer novas possibilidades.  Justo seria se, ao deixar de enxergar o amor, passasse a senti-lo com mais intensidade. E do meio para o fim... Do fim ele não sabia.
O telefone tocou, era mensagem. Oi, amor. O dia foi cheio, amor. Estou indo para a casa, amor. Me espere por lá, amor. Te amo, amor.
Ficou esperando o amor. Percebeu que estava de pé. Percebeu também que se protegia não somente na ideia do começo da vida, mas que vivia enrolado nas cobertas quentes do começo de um amor. E que ali viveria para sempre sem problemas.
Lembrava-se do gosto de qualquer coisa doce que havia no ar. Sentido no cheiro do outro, no toque do outro. Que dava vontade até mesmo de engolir o outro. Como éramos bonitos no começo! E idealizadores...
Porque acima de tudo havia um enamoro. E agora se encontravam apenas no namoro. O que não era de todo ruim, mas significava bem mais do que apenas uma letra a menos. Era esta a transição para o meio? A perda do e. E haveria mesmo somente um meio ou este era apenas o meio de número um? Vida maldita cheia de fases.
A porta se abriu. Ele chegou, graças a Deus. Percebeu que subitamente o apartamento se encheu com um mínimo de cor. Cor cansada e fraca, mas cor.
- O que você está fazendo aí no meio?
- No meio?
- É. No meio da sala. Bora trocar essa roupa. Hoje a gente janta fora.
Namorar sem o e não era assim tão ruim. Só era... menor.
Era apenas o começo da noite. Teria um meio. E o fim?
Do fim ele não sabia.

20 de agosto de 2011

Sol, nuvens e uma janela

Então o amor não é um transe. Um dia você se deita, fecha os olhos e diz: eu amo. E no outro dia abrir os olhos é de um esforço sobre-humano. Uma lástima, pois amar mesmo é abrir os olhos.
Descobri isso por vivência.
Por caminhos tortos e sinuosos você viria (e veio mesmo). Chegou reto, pedindo que eu abrisse os olhos, entortando os meus pensamentos. Provocando uma vertigem sem náusea. Para meu bem e para meu mal – para nós dois eu fiz o esforço sobre-humano de enxergar e, à imposição do amor, me fiz homem. Não que não o fosse, mas antes eu era somente meu julgamento do que era ser um homem.
Forço-me todos os dias a compreender as nuances de vida que cercam o ar de uma experiência. Velho, sábio. E ao mesmo tempo em que valorizo meus esforços, perceba que não os reconheço como um mérito e sim como consequência de algo natural ao amor: transformações.
Acontece que refletindo assim, transformado, experiente, eu diria que o amor o chama a um destino diferente do meu, uma vez que você já carrega o ar de uma leve experiência (leve, veja bem, não toda). E digo que talvez seu esforço sobre-humano fosse ser mais menino. Um menino levado. Que brinca com fósforos. Que pudesse, pelo menos por algumas horas, se desfazer das defensivas de um coração demasiado responsável.
Se você soubesse como ser menino, nossas transformações poderiam atingir o equilíbrio de uma felicidade. E por felicidade devemos entender nada mais virtuoso que um dia de sol e nuvens brancas entrando pela janela. Nada mais que isso ou não haveria equilíbrio de emoções no universo. Nossas transformações, atuando em conjunto, seriam (aí sim) nossos méritos, como lutas diárias para que o amor sobreviva. E assim, sempre mutáveis, outras sobrevivências viriam.
Brincaríamos com o desequilíbrio, invertendo nossos papéis. Eu seria menino! E você seria homem. E nós seríamos dois homens com desejos de meninos: beijar nossas vidas. E nós dois seríamos dois meninos com desejos de homens: criar nossos meninos.
Um homem, enquanto homem de verdade, é forte o bastante para ser feliz. Assim como a criança é feliz sem se dar conta disso. Um homem e um menino seriam dois homens e dois meninos.
Nosso (des)equilíbrio traria sol e nuvens à nossa janela. Tenho certeza.

* Escrito num dia triste. Maturado num dia de sol. 

29 de julho de 2011

Feito de doses

Sei exatamente o que se passa em mim quando preciso falar algo. Sei exatamente pela incapacidade de dizê-lo na frente de quem realmente gostaria. Existe o medo de ser entendido. Medo de que, ao ser compreendido, eu esteja plantando temores desconhecidos numa alma ainda imatura para suportá-los. Há também o medo da desistência alheia. De apontar ao mesmo tempo os dois caminhos: começo e fim.
Eu confio na minha sensibilidade. Mas mesmo que eu ainda esteja forte, não sou imune às tensões necessárias para que um amor exista. Dá vontade de correr ou de cuspir tudo de uma vez, minhas neuras. Sorte a minha que conheço a escrita. É hora de falar.
Que o amor ainda me assusta, veja bem, e isto se deve ao fato de que sempre imaginei o amor como ele realmente é. Na primeira vez que refleti sobre o amor, eu acertei tanto nas suas qualidades quanto nos seus defeitos, de forma que agora é uma responsabilidade muito grande não recuar.
Não recuo, mas exponho agora todos os receios sob o disfarce de uma proposta literária que, Deus queira, se reflita nos dias reais. É que sou todo preocupado (meus olhos tristes não trazem somente tristeza, trazem também preocupações). Porque se alguém não sabe, o amor é feito de doses.
E me acabo em dúvidas. Será que sou piegas demais? Passo horas refletindo se meu romantismo não é barato. Qual o peso de uma frase que é doce? Eu gosto de ouvir duas, sete, mil vezes a mesma coisa, como forma de ser mais e mais abraçado, esmagado por um sentimento que não acaba - multiplica. Meu amor é quilométrico. Mas um relacionamento é constituído de duas partes. Existe um eu e um você. E... o “você” gosta?
Aí surge a busca de um equilíbrio que ao longo dos dias se torna uma quase utopia. Não é de todo ruim. Eu me sinto muito bem, obrigado. Talvez seja mesmo isto o causador do desconforto: é que felicidade demais, a gente desconfia.
Então buscamos um amor livre, que não sufoca. Um amor sob medida. E o que fazer da ideia de uma liberdade que vem acompanhada do medo de que esta se torne uma libertinagem. É de fazer qualquer um arrancar os cabelos! Porque é lindo pensar num amor fundado na emancipação total de sentimentos. Difícil é não se confundir em tais liberdades.
Tudo bem que o amor não é feito de quantidades, mas nele estão presentes suas qualidades, suas nuances. Há dias de sol, da mesma forma que existem dias de amores nublados. Há dias em que eu quero ser livre, como há dias em que tudo o que eu preciso é de amor de pai.
O amor é feito de tensões. Não é o chão firme e fértil, é o eterno cair de um abismo. Na realidade,  o amor é feito do suor de duas mãos atadas que se mantém tremulamente firmes até que chegue a hora certa de soltá-las. Não há segurança na queda, da mesma forma que não há prazer no comodismo. O fogo se faz na tensão dos gravetos. O amor se faz nas tensões de pequenas percepções. Estas são aguçadas com o tempo. E o equilíbrio... é melhor mesmo que seja utopia. Altos e baixos, altos e baixos. O jeito é treinar a alma para não enjoar. E navegar.

21 de julho de 2011

Leonardo

Leonardo era aquilo que costumávamos chamar de volátil. Tinha os olhos bem abertos para o universo, mas tão fechados para si mesmo. Ele não sabia, mas enxergávamos “ilusão” escrita em letras fortes nos olhos brilhosos dele.
Não ficava muito tempo no mesmo lugar, e quando o fazia, pode ter certeza de que estava olhando para o céu. Idolatrava as estrelas. Não acreditava em signos, mas era a única coisa que lia no jornal da escola. Gostava da ideia de que sol e lua possuíssem casas numeradas.
E procurava sua casa. Mas como quem quer todas as casas do mundo. Era talvez inconsciente disso. Buscava uma vida na qual ele pudesse finalmente pertencer, apesar de sua volubilidade, apesar de si mesmo.
Leonardo distraía-se muito fácil. Tinha dezesseis anos, mas isso não justificava muita coisa. Deixava a boca levemente aberta quando pensava demais, quando estava em qualquer lugar do universo, menos este, o físico. Uma vez uma amiga o interrompeu, perguntando no que é que ele tanto pensava. Ele respondeu que se divertia com a ideia de que seus pensamentos percorriam o seu corpo todo e que queria muito entender como é que funcionava o comando “andar” dado pelo cérebro e respondido pelas pernas. Como ele era estranho, nós falávamos. Era mesmo um bobo. Então seguia.
Não era tímido, mas era de poucas palavras verbalizadas, apesar do turbilhão de letras que era sua mente. As meninas da escola o viam assim, quieto, e pensavam como era uma pena ele não ser forte. Pois era bonito, muito bonito. Os meninos também. Se Leonardo era interessado por meninas ou meninos? Nunca soubemos. Os tempos de hoje.
Também era de poucos gestos. Ninguém sabia, mas o tempo todo tentava escutar algum ruído interno, como os comandos do seu cérebro. Ruídos que o fizessem viver. É que Leonardo tinha imensa vontade de ser gente, mas não sabia por onde começar. De forma que se iludia com a ideia de que um dia viria a entender. Iludia-se com a ideia de que poderia um dia viver.
Para sua sorte ou azar, aconteceu. Depois de muito tentar, Leonardo enfim descobrira que não havia ruídos internos. Não, ele não começaria a viver, pois sempre vivera. Ele era – e como era difícil reconhecer! – ele era gente. Leonardo contava com uma vida que não tinha e que um dia ainda começaria a viver. O tempo todo e em vão. Mas ele não sofreu.
Fechou os olhos para o universo. Fechou a boca. Aguçou os olhos internos. Tão fácil. Volátil.

A verdade é que nós queríamos ser como Leonardo.

26 de junho de 2011

Duas verdades (sob dois olhos vermelhos)

Eu quero a porra da verdade.
Eu batia à sua porta com a vontade de gritar feito uma mulher escandalosa que quer a porra da verdade, mas não sabia como ser mulher, eu que era homem. Os nós dos dedos vermelhos, a boca amarga do porre barato do boteco. Eu escorria de chuva, tremia um pouco.
A porta se abriu, ou melhor, ele a abriu: lindo e tão grande e tão homem, eu sempre me surpreendia com o seu tamanho de homem, e ele disse oi, e eu sempre me surpreendia com a sua voz de criança indefesa - e ainda assim ele era uma besta.
Eu quero a porra da verdade.
Ele era uma besta. Sim, um demônio. Seus olhos vermelhos de diabo me fitaram mais alguns segundos antes de me mandarem entrar; impressionante como sua aura sombria me inspirava vontade de entrar, arriscar. Ele me enchia de amor e de ódio e de tesão (imperceptivelmente eu passei a língua pelos lábios secos), mas eu não entrei.
Porque eu queria era a porra da verdade, e então fui mulher: eu quero a porra da verdade!, mas depois de terminada a frase, eu percebi que a havia dito feito homem. Eu o amava mesmo como um homem.
Ele então sorriu, um sorriso de quem não tem o que dizer - em dois dias ele havia se tornado um cafajeste, dois dias, desde que saímos daquele bar brigados, é claro, e ele havia sido um cafajeste, mesmo tendo chorado – ele disse: entra.
E eu entrei, mesmo sem saber se deveria, porque das últimas vezes, o que significa um mês inteiro, eu só entrava para fazer amor com ele, no quarto, na sala, na cozinha, no chuveiro, e agora ele se encaminhava para a cozinha, nós adorávamos a cozinha. Ele abria a geladeira e pegava uma cerveja, e eu juro que não sabia o que fazer, porque eu só queria a porra da verdade, mesmo sabendo que depois de ouvir a porra da verdade eu acabaria transando com ele novamente.
Ele abriu a cerveja, me arrastou para a sala e só trouxe um copo. Encheu, bebeu de um gole. Ele era um homem, mas agora me encarava como qualquer outra coisa - bicho que não morde, talvez. Que quer carinho. Apesar de tudo, ele era mesmo indefeso.
Eu faço outras coisas. Homem grande, voz de menino. Aliás, eu vivo para os outros. Enche o copo, mais um gole. O que seria na realidade viver para mim mesmo. Larga o copo na mesa de centro. Eu não me importo com o que você pensa. Larga a garrafa na mesa de centro. E eu não vou foder somente com você. Costas das mãos pelos lábios molhados. Eu preciso dos outros, você entende? Mãos nos bolsos, queixo alto. O que significa que eu também preciso de você. Encara a janela da sala, me olha novamente. E se quiser viver de mim, você vai aguentar assim.
Enfim, a porra da verdade. Sorriu de olhos vermelhos. Mas eu sabia que dentro dos bolsos suas mãos tremiam.
Foi então que eu deixei de ser homem ou mulher. Foi aí que eu parei de pensar se deveria chorar ou sorrir, me esqueci. Esqueci da minha pele, porque esta de nada valia se não fosse tocada por ele - ele que escolhia também a minha pele. Necessitado. Gentil. E foi aí que eu cedi, submisso àquele que precisava de mim. Às duas verdades, enfim.

Precisava de mim, ele disse. E eu aguentaria assim. 

4 de junho de 2011

Antes de me conhecer (ou um dia de silêncio)

O homem acordou com o dia gritando sua existência no mundo. A janela do quarto era como uma boca aberta que dizia que era hora de ser gente. Levantou como zumbi, sem saber o que fazer com os movimentos matinais que sempre são meio tontos. Jogou bastante água na cara. Os olhos ainda vermelhos refletidos no espelho não disseram bom dia. A torneira, que a vida inteira insistiu em pingar três vezes mesmo depois de fechada, não pingou. Não existiu o barulho da água escorrendo pela garganta da pia. Foi aí que o homem percebeu que hoje o dia seria de silêncio. Mas silêncio incomum - seria um silêncio de pura solidão.
Haveria uma angústia? Sim, uma angústia tímida, ele diria. Houve um momento em que os olhos do homem ficaram perdidos pelo tempo curto de uma revelação, onde ele se via cercado de muito, muito ar. Mas depois disso houve um orgulho.
Aconteceu por causa do reconhecimento de que ar era matéria de coisa vazia, por ser invisível, mas era também matéria de coisa cheia, por possuir um peso. Eu tenho um peso, pensou o homem. Ele era invisível também.
Assim invisível continuou sua tarefa de ser gente que toma um café às pressas e corre para um trabalho que nunca quis como trabalho. Mas algo havia mudado porque não ligou o rádio do carro exatamente para não tê-lo como falsa companhia. Hoje ele queria abraçar a solidão criada pela pia que não mais pingava. Ele não queria pingar. É que eu sou um, pensava. Antes de ser eu e você, eu sou um. Uma unidade de um. Entende?, falava a um você tão invisível quanto ele.
Quando chegou ao trabalho não precisou se esconder para ter de evitar o cumprimento agitado das pessoas que passavam correndo para lá e para cá. Ele simplesmente atravessou o corredor e tinha um sorriso no rosto. As pessoas sorriam de volta, como se respeitassem sua quase invisibilidade. Um sorriso atravessando um corredor.
Trabalhou o mais sozinho quanto poderia. Hoje era feliz e só.  Mania besta de encarar a solidão somente como um sentimento ruim. Há uma solidão para cada situação, rimou divertido.
Não usou de seus papéis como companhia. Não conversou com o seu estresse. Nem assobiou. O silêncio se fundia ao que ele era – e ele era um. Porque hoje sua solidão seria de um egoísmo só seu, assim tão redundante que o engoliria.
E também decidiu no caminho de volta para casa que sua solidão seria da mais pura alegria do ser humano. Não ligaria para ninguém. Não dividiria o seu amor. Usaria do seu próprio colo que por muitas vezes foi divã dos amigos, dos amores. Captaria todo o seu ar e se reconheceria como alguém que sobrevive independente das outras sobrevivências. Pelo tempo que aguentasse – e havia um tempo mínimo de aguentar.
Sim, ele precisaria de um você a quem se apegar a qualquer momento. Mas é que hoje ele saberia controlar o seu eco pelo espaço. Não pingaria três vezes. Nem duas. Uma.
Ele teria a força de ser o melhor você a quem se apegar. Pelo tempo que aguentasse.
Era tempo de aguentar.

* Primeiro eu escrevi. Depois eu descobri o significado. Eu te amo, solitário. Eu te salvo. 

25 de maio de 2011

De manhã

Estavam deitados, abraçados.

- Me protege.
- Do que?
- Dos meus medos.
- Do que você tem medo?
- Às vezes eu tenho medo do amor, de Deus, das coisas infinitas.

Ele pensa um segundo, suspira.

- Mas aí teremos uma controvérsia.
-Qual?
- Eu só saberei te proteger sendo o seu amor, o seu Deus, sendo infinito pra você.
- Hm, eu entendo.
- Entende?
- O amor é mesmo sem-vergonha.

Ele sorri.

- É. O amor é mesmo sem-vergonha. Me protege?
- Do que?
- Da sua beleza.
- Aí temos outra controvérsia, eu não sou bonito.
- É sim. Você tá ficando cada dia mais lindo, mais meu.
- E isso te dá medo por quê?
- Porque quanto mais meu, mais vai doer se você desaparecer.

Ele suspira um medo.

- É isso o que acontece com todos os amores do mudo? Desaparecem?
- Parece que tem um cartaz de ‘’procura-se’’ em toda esquina da cidade.
- É bem verdade...

Silêncio.

- Já sei. Então vamos fazer uma oração.
- Pra quê?
- Pra gente desaparecer junto, ir para a mesma outra dimensão.
- Outra dimensão... dos amores esquecidos?
- Não, não. Dos amores infinitos.
- Ah. Tá. Então começa você.
- Começo. É assim.
............................................... .

- Amém?
- Amém.

“Meu amor... essa é a última oração... pra salvar seu coração...” *

* Trecho de Oração, A banda mais bonita da cidade.

** Pensa em alguém que te faz suspirar a cada segundo. Pensa em muitas referências literárias numa conversa cheia de desejo envolvido. Pensa em saudade/vontade (deve ser tudo a mesma coisa). E pensa n’A Banda Mais Bonita Da Cidade, com essa música lindíssima. Pensa em nós dois, leitores. 

19 de maio de 2011

Labirintro

Paro, penso – sonho. É um sonho. Repito: é um sonho-sonho, e ouço vozes que repetem: um sonho, dois sonhos, três sonhos... Movimentos de cabeças e uns corredores: largos, intocáveis, cheios de – corredores outros.
Percorro caminhos sem rotas. Ocorre também uma dor que corre no peito e sufoca. Luzes saindo das bocas desconhecidas dos que me fitam e gritam: desconhecido! Não pode ultrapassar nossos caminhos, aqui não há caminhos!
Luzes vermelhas, não são de sangue, mas são vermelhas e vindas do infinito. Labirinto.
Corro, grito por socorro, e há um gozo, tímido, mas há um gozo. Estou perdido entre tantos perdidos - que me fitam. Meus olhos são os únicos que não fitam, medroso, medroso!, mãos que tremem sem motivo, minhas mãos me são desconhecidas. Todos olham, quem me olha? Quem vem, se vem, me resgatar do infinito?
Luzes de um infinito-intro. Mais que intro, entre o intro. Labirintro?
Ah, as luzes me cegam, me cegam, ah, eu preciso existir. Ah, ah. Há um baque. Um momento de vazio barulhento e depois silêncio, o silêncio.
Paro. 
Pisco. Acordo. Grito.

Eu sou eu?

* Escrito no dia 5 de abril de 2011. Fase ruim de escrever... amo vocês que me leem. 

19 de abril de 2011

Uma oração

Eu juro, ao menos pelo tempo da eternidade, não te desejar. Juro não mais te abraçar ou te beijar. Eu juro pelo juramento divino: entender o meu lugar, assim sozinho no mundo, e nem por isso ser infeliz. Eu juro por tudo aquilo que prometi e não cumpri – e assumo hoje também todas as promessas mal pagas do mundo. Porque hoje eu tenho a força de assumir a culpa do mundo.
Hoje eu quero um ontem e um amanhã condensados num único estado de espírito: o hoje. Porque hoje eu sou a maior prova de que o auto-controle é também o auto-descontrole mais que necessário para todos de condição humana. Hoje eu sou eu nas minhas maiores falhas e juro por estas mesmas falhas errar, errar – um erro sempre certo. Hoje eu sei que posso dizer de boca escancarada: eu te amo, mas aceito o não-amor que tu tens para me oferecer. E serei feliz pelo sim que dou ao teu não.
Hoje o meu falso juramento é da mais concreta verdade, forjada tão perfeitamente que se tornou a própria verdade. Hoje eu sou aquele que pode tudo. Eu tenho a chave do universo numa das mãos e a outra livre para pegar, para bater, para tocar. Hoje eu sou um hoje, até que meu amanhã se torne um hoje . E hoje eu desconhecerei o ontem, porque o ontem já teve sua beleza desmascarada, pois era um ontem.
E eu juro por eu mesmo. E também juro por você que me ensinou a jurar e a rezar. Eu juro pelo tempo curto de um orgasmo que vale pelo tempo infinito de um para sempre. Eu juro conseguir existir sem você - aliás, quero que saiba: eu tenho existido.
Eu existo hoje. Existo com a força de uma escolha ruim, mas ainda hoje. E juro tudo isso com a força de uma oração e de um amém para que eu me mantenha firme. Mantenha-me firme.

(um amém)

* Acho que eu não sei não escrever esquisito. Mas que fique claro: eu não escrevo para que ninguém entenda. Porque muitas vezes nem eu entendo. O importante é que “chegue” em vocês de alguma forma. Com ou sem entendimento. Amo vocês que me leem. 

11 de abril de 2011

O lar das coisas que voam

Nada mais faz sentido, eu não sei pertencer. Eu, logo eu que costumava ser eu mesmo uma, duas, sete vezes, hoje não sei nem da metade daquilo que fui. Fui? Não sou, fui e quero poder ser, mas como? se me pego apegado às repetições, ah, as repetições, as repetições.
Eu te falei. Há uma linha reta, o meu gráfico estável, sempre repetindo os pontos de altitude anteriores. Eu que sempre vivi em desordem, hoje abomino essa gaveta organizada que me tornei. Não suporto a estabilidade que nem sequer é falsa, inventada. Antes fosse, antes fosse...
E antes eu fosse eu, se o soubesse ser novamente. Antes eu fosse o fluxo de energia que move o mundo, pois me sentia assim: o fluxo que move o mundo. O problema é que meu mundo era eu e eu – e agora é como se estivesse fora dele: então onde estou?
Se eu olhar para os lados, reconhecerei fisicamente todos os lugares em que passei. O meu corpo-matéria reconhece a pseudo-vida de tudo que brilha por aqui. Mas não, o meu estrangeirismo me é de alma. Ela grita de pavor, que lugar é esse, que lugar é esse. O aqui do meu corpo não pode ser o aqui da minha alma. É exatamente o não pertencer de alma que me faz dolorido.
Ah, tantas dores, tantas e atingem o inatingível que é o exterior a mim. É como se as pessoas ao meu redor não suportassem o ardor de uma alma que está prestes a sair das pontas dos dedos: quero ser livre, quero ser livre – preciso pertencer.
E de repente, mas de repente: há a consciência de que o seu pertencer é exatamente o oposto. Como se o maior desejo do meu interior fosse ser desterrado do próprio corpo, finalmente livre para poder vagar – a palavra é vagar – pela ausência de espaço existente num não-mundo qualquer, e eu, o eu-físico, pudesse finalmente pertencer à massa de carne que povoa a Terra, o mundo mudo dos seres cheios de matéria de tudo-o-que-é-palpável e igual igual igual. Sim, sim, e de repente, mas de repente. Sim. O não pertencer é o lar das coisas que voam. 

2 de abril de 2011

Vermelho

Acordei cheio de um tom azul – vivo pela primeira vez na vida. A cabeça vazia de pensamentos, o corpo leve apesar da tristeza de toneladas dos dias passados. Eu não entendia.
Ergui-me e após o ritual matinal, pus-me a caminhar pelos jardins de uma vizinhança imaginária. A vida toda sonhei com jardins vizinhos. Nunca gostei da paisagem ruim dos lugares onde morei – toda casa de verdade deveria ter um jardim, de forma que, na minha mente, montei cada flor de acordo com seu dono. A minha era azul.
Eu andava, andava. A força do meu pensamento é estranhamente movida a passos. É assim que organizo a minha vida: andando. Mas exatamente hoje eu não pensava. Eu usava o mecânico do andar para andar, e era guiado por uma energia que se desprendia de mim, ao mesmo tempo em que me puxava em sua direção.
Minha mente era uma linha reta, mas meu corpo não podia deixar de estranhar uma leveza súbita, depois de uma fase ruim, de peso.
Confesso, tenho sido uma pessoa triste. Tenho sido maltratado pelas minhas próprias lágrimas provocadas. É tão raro me ver chorar, que quando acontece, as lágrimas saem gordas e deixam marcas. Riscos vermelhos que vão dos olhos à boca. E não há maquiagem que engane minha tristeza solitária.
E simplesmente um dia eu acordo todo azul. Um azul sem sorrisos, mas alegre. Eu acordo já “epifanado”, se é que isso existe, sem o ato da transformação do triste para o alegre.
Há de se entender que existe aí um processo biologicamente acontecido durante o sono? Ou durante a embriaguez das lágrimas ácidas? Ou não houve nada. A única certeza é que de triste eu virei azul. Como?
No caminho de volta para casa eu entrei sem sorrir, mas azul. O que me intrigava era o fato de saber que não havia felicidade, não. Mas então, o que havia eu feito de toda minha tristeza?
Coloquei uma música boa para ouvir, tomei um café propositalmente doce e me dentei por cinco minutos. Quando me virei na cama, notei um canhoto em cima do criado mudo, escrito num vermelho reforçado várias vezes.

“A tristeza vai ter de ser azul.”

Ontem.
Então eu ainda sou triste, pensei. E minha alegria é a tristeza - quando ela é azul. Eu inconscientemente provoquei o meu dia azul.

... Eis o poder do vermelho.

* Fácil, pragmático. Diferente de tudo que já fiz, acho. Espero que gostem... amo vocês que me leem. 

27 de março de 2011

Sobre teu brilho de artifício

Eu me sentei – escrivaninha, papel e caneta à minha frente – e comecei a escrever compulsivamente o teu nome. Devo mencionar que a caneta era de um dourado mais dourado do mundo, assim como sua tinta. As letras saiam gordas e carregadas de um brilho tão intenso, de cegar os olhos.
Você sempre me passou a sensação de brilho. Talvez seja pelo fato de tanto te ouvir cantar aquela música que hoje me faz lembrar você – infernalmente. Aquela que diz que você só tem de acender a sua luz... e deixá-la brilhar.
O que sei é que no fim, três folhas foram preenchidas com o teu nome completo, frente e verso, sem vírgula, sem ponto final, somente teu nome infinitas vezes. Durante o transe, eu tinha a certeza de que as palavras se transformariam em fogos de artifício – representações de você - mais brilhantes e coloridos ainda. Sentia até uma dor imaginária no pescoço de tanto levantar a cabeça e assistir ao show que era você explodindo em luzes, como se cada partezinha da tua essência fosse um átomo responsável pela iluminação da terra.
É estranho observar o mundo após o transe. É triste e sem cor, tão sem cor feito uma decepção acontecida no escuro. Acontece que passei o dedo pela primeira letra da primeira folha e o dourado molhado passou a ser um amarelo mal definido, um brilho disperso e fraco. Passou para a segunda letra, o segundo nome, a segunda folha. Percebi que não havia como tê-las comigo, levá-las comigo. De tanto manuseá-las, elas se tornariam feias. Elas se tornariam – elas mesmas? Letras apagadas.
E se eu manuseasse você? Aconteceria o mesmo, de certo. Teu brilho se revelaria uma maquiagem falsa. Teu encanto seria dissolvido na primeira tentativa de explosão maior. Teus olhos se tornariam estáticos e você seria incapaz de fixá-los nos meus, conscientemente. E então a melhor coisa a fazer seria observar os teus fogos de artifício de longe, bem de longe. Para não me queimar. Ter uma desconfiança que leva à segurança.
É triste ter o reconhecimento de que tua luz é toda barata. É triste e difícil chegar a uma conclusão: não acreditar no brilho das pessoas. Não ter a infantilidade de se dominar feito criança por pontinhos de luz no espaço sideral.
Mais difícil ainda é tomar uma decisão. Agir. Fugir do teu brilho e da tua música.
Aliás, está mais para minha música. 

Pois quem se sente um castelo de cartas a um simples sopro de desmoronar, sou eu.


* Levemente inspirado na música que mais tenho ouvido em minha mente nos últimos dias. E não na voz de sua cantora original.
** A viagem à NYC foi linda! Em breve, texto sobre ela. Beijos! Amo vocês que me leem. 

13 de março de 2011

De mansinho

Tenho dias de dramas profundos. Dias de uma sensibilidade cuja espessura é o invisível. Como hoje: estou à beira, querendo olhos de ódio voltados a mim. Querendo a dor de ser pisoteado e jogado aos leões desse festival de sangue que é estar à deriva das vontades dos deuses injustos dos amores. Não que eu seja dos extremos - sempre fui brando. Mas hoje eu quereria um mínimo de rudeza. Um mínimo de não indiferença.
É que eu tenho vivido na sua indiferença. Sei que errei na mania besta de sentir tudo inesperada e incontrolavelmente. De amar imensamente as pessoas tão repentinamente. Acontece que eu pareço ser sugado pelo mínimo de essência boa que existe nelas e caio lentamente num precipício de sensações onde cada sinal é sinal de amor, cada casualidade é algo apaixonante e cada olhar cansado é um afeto despercebido pelos olhos comuns.
Não que o meu amor seja fácil, mas meu coração e minha alma captam tão rapidamente tudo o que há de belo, que não consigo evitar um acesso de amor repentino e na maioria das vezes não compreendido. E quando digo belo, falo sobre a beleza das pequenas imperfeições. Eu que sou encantado pelas (suas) falhas...
E aí surge aos poucos uma melancolia tão mansa que me faz tremer de medo do invisível, do intocável que é o espaço entre o amor e o ódio, o equilíbrio chato que é o cerne dos domingos. Você e seu equilíbrio, causador do meu desequilíbrio. Você e sua pompa de esfinge, decifra-me ou devoro-te; mas você esqueceu do principal que era me lançar o desafio.
Então eu me perco. Fico de olhos fechados captando existências de você no universo que todos têm na escuridão das pálpebras cerradas. Os pontinhos rodando e brilhando timidamente, pequenos pedaços de essências de todos os tipos.  É uma vivência de triste alegria, adentrar este universo. Alegro-me tanto com a falsa realidade que logo fico triste por haver a palavra “falsa” antes de “realidade” e por esta ser minha condição de verdade. Mas é o mínimo de desequilíbrio a que posso chegar já que não há mais você a meu redor.
E chego a momentos de extrema solidão, onde escrevo à vontade o teu nome, sem me envergonhar do que possam perguntar. Como se seu nome saindo de dentro de mim fosse uma forma de te expurgar, te expulsar. Um ato falho que alivia.
E enquanto vou me lembrando dos segundos de olhares tímidos e carícias sob disfarces, como quando fingia arrumar seu cabelo; quando me lembro das pontas dos nossos dedos se encontrando a cada troca de bebidas, acontece um riso em mim de quase alegria. E depois vou me lembrando do peso dos morros que subimos e da redoma de vidro que repentinamente nos envolvera. É neste ponto que acontece uma tristeza e me arrependo do que escrevi no último desses dias que venho me lembrando incansavelmente, sufocantemente.
Eu escrevi: “Não precisa ter medo. Eu saberia te amar em silêncio e de mansinho.

Estou cumprindo.

* Talvez só escreva novamente quando voltar de NYC. Desejem-me sorte. Amo vocês que me leem. 

9 de março de 2011

Anotações de um carnaval cheio de tristes alegrias

Pra fazer um samba com beleza/É preciso um bocado de tristeza/Senão não se faz um samba não. (Vinicius)

Há tempos eu não viajava. Não que a vida agitada me impedisse, mas simplesmente por falta de vontade. Decidi então, de última hora, me dar uma chance. Decidi que iria para qualquer lugar que me proporcionasse alguma vivência digna de nota, por mínima que fosse. E logo eu que sempre fui o rei das expectativas, fiz um juramento: iria desarmado. Pelo menos desta vez eu estaria à deriva.
A data é das boas: carnaval. Pessoas pulando, cantando, bebendo, fumando, beijando – fugindo de uma realidade cheia de rotinas tediosas. Fiz várias anotações, mas não vou narrar fisicamente meus dias de folia. Não quero me ater a nenhum fato orgânico. Sendo um escritor cujos respeitáveis leitores já conhecem um pouco da essência, descreverei tudo o que houve de perceptível à minha alma aguçada – e somente a ela. Tudo o que pude perceber de fantástico nas coisas mais comuns e simples.
Para não confundi-los, escolhi uma estrutura de tópicos que podem ou não ter ligações entre si. Não estão organizados conforme a ordem que me ocorreram, anotei cada um no primeiro papel que me aparecia nas mãos, de forma que não me recordo da cronologia das coisas. E se tratando de coisas abstratas, de que serviria a cronologia delas? Aqui estão:

- Você encontra pessoas cheias de luz. Amigos instantâneos. Amigos de três ou quatro dias, que podem ou não permanecer mais tempo na sua vida. Independente disso, amigos.

- Hoje eu tive a experiência do pré-amor. Acontece quando inocentemente, numa troca de bebidas, as pontas dos dedos dos dois embriagados se encontram e dançam suavemente por frações de segundo. Nasce então a primeira faísca de um amor azul.

- Eu falo tanto de impulsos que me sinto um mentiroso. Não sigo metade deles na vida real. Prova disso é esta indecisão do segundo dia. Esse ato incansável de esperar pelo primeiro movimento. Quando serei capaz de começá-lo?

- Se somos tão parecidos nas nossas materialidades, por que não investigar a semelhança de nossas almas?

- Carnaval e flerte combinam tanto que temos de deixar todo tipo de amor de lado. Na quarta-feira de cinzas eu direi perdoa-me, Senhor, eu amei.

- Meus sentimentos são tão infantis. Atingem o ápice em segundos de nada. Dias vividos à flor da pele.

- Os dias para pensar. As noites para beber. Exatamente pra não ter de pensar – mais. Para compensar toda essa pensação dispersa à claridade dos dias.

- Uma anotação removida pelo autor.

- Estou tendo a esperança de que assim como todo carnaval tem seu fim, você e seu encanto também terão.

- O riso coletivo gera milagres. 

Ninguém seria capaz de enxergar tais coisas descritas acima nesses dias de festa (se alguém enxergou, me avise!). Mas eu juro que senti todas elas. Essa mania de ser poeta em todas as situações da vida... Foi tudo muito bom, apesar dos leves pesares. O importante é que a missão foi cumprida. A rotina dos dias anteriores estava me deixando emocionalmente estável. A sensibilidade foi se perdendo. Consegui tocá-la novamente pela viagem. Deus sabe o que faz.

Uma breve anotação pós-carnaval:

Evitar.

* Muito tempo sem postar! Precisava tanto dessa viagem! Foi uma delícia. Agradeço todos que fizeram parte dela, sem exceção. Vocês foram lindos! E aos leitores, espero que aproveitem alguma coisa... amo vocês que me lêem. Beijos! 

22 de fevereiro de 2011

Arquitetos

Parece-me que deixamos o fio de vida restante em nós se esvair. Estamos entrando no vácuo das coisas esquecidas, estas que formam o nada que movimenta o mundo. Uma vez ouvi que o mundo é erguido pelas coisas que se perdem sem motivo – e que são tantas. Parece-me que de duas almas conectadas, nos transformamos em espectros errantes, dois Cains pelo mundo afora, mas não por termos matado nosso irmão. Matamos aquilo que dá vida a vida a dois.
Estou cansado da força que o abstrato exerce sobre a humanidade. O apego por aquilo que é invisível a olho nu perde toda a poesia com o passar do tempo. Há um desgaste dos olhares que se tornam mecânicos, dos beijos que começam e terminam nas bocas unidas – unidas?, nas mãos que se tocam sem sentir. O tempo é sábio ou inimigo? Tornamo-nos incapacitados de – tanta coisa.
Não encontro respostas, as minhas respostas de segurança. Por medo do teu questionamento eu passava as noites formalizando respostas e conselhos e soluções para nossa instabilidade, mas elas simplesmente sumiram. E o pior de tudo é que, apesar de meu esforço, você nunca me questionaria; sabedoria demais para provocar uma discussão sem fundamento.
Então um dia acordaremos um do lado do outro e simplesmente reconheceremos o não-fundamento de uma relação que teve tempo demais para ser planejada. Imaginária e não acontecida. De fato levamos tempo demais para levantar tijolo a tijolo, e como arquitetos absortos no seu próprio projeto, acabamos esquecendo de que poderíamos trabalhar juntos e de que teríamos de ter um pouco de verdade como ferramenta principal. A ilusão se mostrou incapaz de sustentar os nossos pilares.
E apesar do reconhecimento, é impossível imaginar os dias sem você. Eu desaprendi a viver só. É estranho enxergar o fim e ainda ter a certeza de que somente você nos salvaria desse mundo de domingos em que nos encontramos. Lembro-me bem do seu dom de nuances de vida, do seu esforço em fazer que tudo parecesse novo. Você que dava movimento às horas, a todas as coisas inanimadas de um dia ruim. Até nos momentos de ocupação extrema. A vida agitada tira um pouco do quê da nossa essência, é um tédio às avessas. E você conseguia fazer com que tudo tivesse seu tempo...
Hoje o que mais temos é tempo. Horas agonizantes de porquês e de tentativas de entendimento. Os lençóis molhados de (in)satisfação realizada sozinha. Horas de você lá, eu cá. Agora eu entendo que nós nos salvávamos a todo minuto. Somos a tentativa de um amor forjado, a infantilidade de querer amar e não saber como. Somos fake.
E nós dois também seremos esquecidos e apagados dos romances, um conto inacabado que não precisa de explicação e os leitores reconhecerão o fim mesmo que não haja um ponto final.
Eis nossa viagem para o nada do esquecimento. O mundo é feito de perdições e assim vamos movimentá-lo, mesmo que este seja um ofício triste de arquitetos tristes. Pelo menos dessa vez, juntos. É tudo uma questão de tempo. Ah, o tempo.

* Começado em 30 de Janeiro, finalizado hoje com a ajuda do @marcsuxxx. Obrigado, de coração.

18 de fevereiro de 2011

Mais um sobre você

Por um momento eu gostaria de poder parar o teu movimento sobre a terra, para ver se sossego esse desconforto de te ter tão longe. Confesso-te isso neste instante em que tenho uma foto tua em minhas mãos e teus olhos me perseguem, não importa de que ângulo eu olhe. Mas antes fosse somente uma questão do teu olhar fixo na lente da câmera. A questão toda é você ser tão cheio de movimento quanto eu, possuidor dos movimentos. É você saber dançar sem saber, até quando há uma força que te obriga ficar estático num papel – em vão.
Não somente os olhos, mas teu corpo inteiro parece se encher de uma energia de mundo e parece fluir dos teus poros, um fluido cheio de uma leveza que contagia. E parece que teu corpo vai seguindo o ritmo lento desse fluido, e você se mexendo sutilmente de uma borda a outra da foto, me deixando meio tonto. É como se a cada movimento seu, por mínimo que seja, restasse um eco da essência dele, uma sombra interminável até que o próximo movimento comece. Magia, não. Você, assim como na realidade há de ser.
É que eu pareço ter te criado como a um Deus. Nunca te vi. Ah, e eu que sou o mestre das idealizações, como ainda não pude tocar aquilo que sei que é o meu complemento de alma? Talvez na falta de uma espiritualidade maior que me acalentasse, eu tenha colocado sobre sua existência humana uma condição divina, mesmo que a distância. Dizem que a paixão tem dessas coisas de idealismos, tem mesmo.
Teu nome me ocorre de segundo em segundo e assim, parece que sou estranhamente observado por você. Eu aproveito e te chamo, para fazer cena. Aquela coisa de meu amor, venha cá dormir comigo e passo horas imaginando como deve ser teu movimento durante o sono.
Eu sei que te assusto, assim como me assusto e me encabulo ao notar que você também parece querer ser coisa minha. Você e sua majestade humilde, mas não menos notória. Sei que você se vê perdido nestas palavras que te põe num pedestal tão alto que é capaz de te provocar vertigens. Mas acostume-se ao fato de que você já faz parte do meu palco. Acostume-se à valsa que foi criada por nós dois no momento em que nos desejamos pela primeira vez e que ainda dançaremos juntos.
Vamos deixar tudo mais fácil? Somos artistas, meu amor. Somos nossos únicos deuses. Eu e minha criação tanto costurada em letras quanto em giros e saltos de um ballet, você e sua capacidade de ser a perfeição daqueles que te amam, simplesmente por emanar a essência que inspira os apaixonados mesmo a quilômetros, teu segredo de artesão. E há de se chegar o dia em que, no fim desse nosso espetáculo, nós dois subiremos ao palco de mãos atadas na hora do reverance. Como deuses da arte de saber amar.

* Desculpem-me esse mel todo, mas só sei escrever de dentro para fora, terão de agüentar essa fase colorida, céus! –rs; Mais um texto inspirado em você.
** E perdoem o tamanho do texto, mas, de verdade?, se for para comentar sem ter lido, prefiro que não comentem. É nítido quando comentam somente para ser respondido no blog. 
*** Criei uma página no Facebook para o blog. Quem puder/quiser curtir... aqui está: Contemporanizando . Obrigado!!!