28 de dezembro de 2010

A ponte

Estava apaixonada pelo simples fato de tê-lo visto passar e ter dito a si mesma: estou apaixonada. Foi ali, naquele instante que recebeu a condição do amor por um desconhecido e a aceitou de braços abertos. E como fosse um amor que tinha mesmo de acontecer, para sua sorte, não houve sofrimento. Em poucos dias soube que era um amor recíproco.
Das trocas de bilhetes não há necessidade de se contar, os apaixonados de plantão já a conhecem. Nem dos olhares e sorrisos tímidos antes do encontro oficial, - esse sim seria um pecado não narrar. Foi simples e sem diálogos (a não ser o dos olhares). Mas foi sufocantemente intenso.
Chegaram ao lugar do encontro que não merece descrição, pois em segundos eles mesmo criarão o lugar perfeito para o encontro, só deles.  Estavam ainda distantes, cada um num extremo do local. Ela tremia e ele se mantinha firme, embora o coração estivesse acelerado. Conforme foram se aproximando, aconteceu.
Seus olhos se encontraram tão firmemente que formaram uma ponte para facilitar o encontro físico dos dois, uma vez que as almas já estavam conectadas. Era uma ponte larga, de pedra e era somente deles. Ele deu um passo apenas, estendendo a mão. Ela se manteve imóvel.
Vem, ela ouviu os olhos do rapaz dizerem e teve um princípio de pânico. Era tudo insano: a ponte, o olhar, a imaginação. Mas os olhos do rapaz lhe sorriram: confie em mim.
Ela confiou e atravessou a ponte, a cabeça agora vazia de pensamentos, sensação estranha. Parou bem na sua frente e teve um súbito de e agora? Mas ele mais uma vez lhe sorriu – era simples.
Além dos olhos, outros membros dos corpos se encontraram. As bocas as mãos os braços os cabelos os pés as pernas os sexos. Todos numa tentativa de fusão desesperadora. Não havia o som de pássaros, as harpas, os clichês românticos. Eram a ponte, eles e o mundo.
Há de se dizer que somente depois do beijo é que puderam realmente se falar, digo com a boca. E que ficaram ali por muito tempo.
E é tudo o que se sabe.

* Este é um de meus textos mais antigos. Ou pelo menos a essência dele é antiga. Hoje pude lapidá-lo e deixá-lo mais maduro. Aproveito para dizer que o próximo post só sai ano que vem. Reservei algo bem bacana pra começar o ano bem. Acho que vocês vão gostar. Enfim... que venha 2011! Amo vocês que me lêem.

23 de dezembro de 2010

O corredor

Uma camada fina de calmaria azul. Ouvir o tiquetaquear lento do relógio que conta os minutos longe de você (muito bem aproveitados, diga-se de passagem). Sentir uma brisinha quente na testa, parecida com um beijo respeitoso. A estabilidade das coisas.
É assim quando o ciclo se fecha, como se, antes do próximo passo novo na vida, fosse preciso um período quase imóvel, sem fortes emoções. Um período um pouco causador de desespero também, eu diria, mas um desespero mais teórico que prático: há um monte de perguntas sem respostas. Eu tenho confusão dentro de mim, eu digo para Deus, mas ele continua mudo e barbudo, apenas olhando para mim com um sorriso torto na boca.
Acontece quando alguém se vai. Acontece porque você se foi. Na verdade você foi carinhosamente deixado de lado, com muito esforço, Deus sabe disso, para que você percebesse somente no final – deu certo. Afinal de contas, há um motivo para eu me orgulhar de mim mesmo. Foi tudo pensado, step by step, começando pelo processo de desapego das coisas materiais, pois você me era material e depois sumir de mansinho da sua vida, lhe causando um mínimo de surpresa (passageira).
 “Ciclo se fecha” significa também um “bocado de solidão por tempo indeterminado”. Período onde as lembranças dos terrores e amores passados são colocadas no baú dos esquecimentos. Como se alguém me empurrasse em direção ao fluxo da vida, eu vou passando pelo corredor das lembranças vigiado por Deus – passo por elas, as vivencio e em seguida as esqueço. Viram retratos num álbum empoeirado.
Vejam: eu estou no corredor e passo pela última lembrança que nele se encontra. O corredor não segue a ordem real dos fatos. Agora ele toma a forma daquele ponto de ônibus deserto, talvez nossa lembrança mais feliz. Eu tenho o olhar cansado do dia cansado, mas talvez esse tenha sido o único dia em que eu não me preocupei com o fato de que te perderia. Eram apenas os teus olhos verde-mar e o teu cabelo desbotado. Éramos extremamente egoístas quando se tratava de nós dois nesses segundos sublimes de uma simplicidade assustadora.
Eu atravessei o corredor inteiro sob o olhar do todo poderoso. Hoje eu consigo enxergar outros mares que não seja o mar dos teus olhos e consigo afagar outros cabelos. Talvez eu já soubesse do jogo perdido desde o start. A única lembrança restante é teu nome – que a partir de agora eu escrevo com letra minúscula. O baú dos esquecimentos encontra-se selado em algum lugar da minha vida. Agora sou eu, a calmaria azul e as confusões da solidão que enfrento sem medo. Vai ser minha companheira até que o próximo corredor se abra, o corredor dos novos amores.
Deus olha para mim lá de cima. Sei que, por mais que não queira demonstrar, ele está orgulhoso de mim. Eu o olho fixamente, como se quisesse desafiá-lo a sorrir e a dizer parabéns meu filho, parabéns por ter chegado ao fim do corredor. Como ele não diz nada, digo eu. Obrigado.

* Hoje o @marc_says me lembrou que dia 25 de Dezembro, além de ser aniversário de Jesus, é claro, é também ANIVERSÁRIO DO BLOG! Como pude me esquecer? UM ANO lindo, cheio de coisas boas! Portanto, dedico este post a todos os leitores, desde os mais antigos aos mais recentes. Obrigado pelo apoio, incentivo e carinho. Obrigado de coração! E que venha 2011!

17 de dezembro de 2010


O texto é de um vazio sem fim. Por isso o não-título dele.

E mais uma vez eu me volto a um nada qualquer de minha essência. O período onde nem frases soltas surgem como acalento de uma dor, seja ela qual for. Percebam, ultimamente tenho falado muito sobre coisa qualquer e nada sobre coisa concreta. É que me sinto preenchido por um vazio que tem peso, mas que não tem forma.
O que me assusta é o fato de, às vezes, aceitar esse vazio como condição natural. As coisas estão tão distantes de mim. As coisas do amor, as pessoas, as minhas querências. É como se eu sentisse entre a minha alma e a minha carne uma camada de ferro frio intransponível. Nada passa por ali: o sentimento que já tive continua armazenado no seu devido lugar e tudo que é novo está sendo impedido de entrar.
Mas é que é tudo tão banal. O novo que me aparece já é tão velho, batido, conhecido de outros tempos, de forma que prefiro o vazio que me preenche, o meu nada. Pelo menos é meu e só meu – e tem essência.
É isso, trata-se das essências. Estou na minha fase de intensidades. Eu preciso que tudo seja de tirar sangue. Se for amor, que seja daqueles de tirar sangue, se for desamor, que acabe comigo, mas que tenha sangue. A verdade é vermelha.
Os dias parados parecem domingo, e tenho vivido num domingo sem fim. Eu preciso de sangue, pois não sinto nem o meu correndo pelas veias. A palidez do amor mal feito, o sonho vivido às pressas, as obrigações que consomem meus dias têm me causado um caos de alma que me deixa tonto.
Eu preciso que algo cheio aconteça. Eu preciso da mão desconhecida que tanto seguro nos meus poemas e que simplesmente foi embora sem aviso. Eu preciso da criatura desperta. Eu preciso da coisa inteira, seja amor seja rancor. Eu preciso de você e não do seu reflexo no espelho. Eu preciso ser salvo do domingo.

* Domingos podem ser tediosos e "ocos" como diria Clarice. Este foi um desses. Escrever pra aliviar...
** 4,000 visitas! Tão FELIZ! Obrigado, de coração, a todos que leem. Amo vocês! E vocês me fazem cada vez mais amar escrever. MUITO OBRIGADO!

9 de dezembro de 2010

Expansão (ou sobre a felicidade)

Até não restar caminhos aonde eu pudesse expandir meus pensamentos. E como conseqüência expandir o corpo, a alma, a mente – crescer.  É que hoje eu aprendi a tocar a felicidade pela expansão de mim mesmo. Foi assim:
Eu acordei e percebi que faltava alguém ao meu lado, mas não era alguém específico. Tratava-se de uma alma boa que talvez eu nunca tive. E que fazia falta imensa. Era a alma que sabia acalentar os momentos de sangue e que, ah... tem sido tantos. Os momentos de choro que simplesmente são cortados na primeira lágrima. Eu nunca soube chorar. Eu nunca me permiti chorar por coisa pouca, e apesar de hoje reconhecer o orgulho como erro, ele já está arraigado em mim, fica tudo preso na alma. Talvez eu precisasse de alguém que me provocasse qualquer emoção de choro completo, por qualquer coisa.
Eu acordei de novo e não estava lá. “De novo” porque num primeiro momento eu fechei os olhos novamente para dar tempo de você chegar, me olhar dormindo, me dar um beijo na testa e se acomodar cuidadosamente ao meu lado. E mais cuidadosamente colocar teu braço ao meu redor. Eu esperei e não senti teu olhar, teu beijo, teu peso sobre a cama, teu braço. Abri os olhos e jurei que hoje eu aprenderia a ser feliz. Eu procuraria em todos os cantos da casa, da vida, a felicidade.
O dia foi longo. Por muitos momentos pensei que o juramento fosse ser em vão. Eu abri a gaveta onde guardei todas as lembranças de todos os momentos que mereciam ser lembrados. Mas momentos tão lindos, estes se transformaram em pedra, algo morto dentro da caixinha de madeira, momentos de felicidade finita, e ao abrir a caixa eu só me provoquei uma nostalgia tão causadora de sono... é tão cansativo abrir e fechar todas as cartas, todos os embrulhos amassados de presentes que já nem tenho mais. 
Então aconteceu: uma ira inesperada, um desejo por limpeza, um impulso de novidade. Sem dó eu joguei tudo para fora do quarto, da casa, da vida. Eu me faxinei das coisas materiais, não só da gaveta, mas de tudo que era um mofo sem fim de lembranças. Mudei a posição da cama para torná-la minha e não mais nossa. Pendurei um retrato meu no lugar vazio onde se encontrava nosso retrato há uns meses atrás. Mudei alguns móveis de lugar e sem olhar para trás saí de casa para um passeio.
Eu abri a porta da rua e senti o ar fresco que nem existia, por ser um dia de muito calor. Eu senti o ar provocado pela minha mente me tocar e me beijar e me vestir de toda a novidade que o mundo tem a me oferecer. E caminhei incansavelmente com a sensação de que o mundo era meu e de que eu era maior do que o mundo. Eu caminhei até não restar caminhos aonde eu pudesse expandir meus pensamentos, até zerar a alma. E quando voltei para casa, era tudo novo, já era lua nova, e tudo que "era" viver para mim, se transformou num "é". 

* 9 de Dezembro, aniversário de morte de Clarice Lispector. Ela que entendeu tão bem sobre a felicidade clandestina que é viver... sua alma continua viva nos livros e em nós.