26 de novembro de 2010

Decidi que escreveria

Decidi que escreveria. Desta vez sem intuitos, sem vaidades. Simples, pragmático, algo meu e só meu e que não há de agradar ninguém. Na verdade, nunca fui de agradar ninguém. Se os leitores gostam de minhas letras deve-se mais pelas verdades que nelas existem do que pelos meus dons literários. Não é nada previamente formado. É tudo sangue, sujo, sem polimento. É de doer a alma de quem lê, e se o que escrevo enternece deve ser porque a dor agrada algumas pessoas.
Pois bem, decidi que escreveria. Hoje, agora, assim, coisa que nasce, mas com um único cuidado: que não fosse sobre você, o causador do desamor dos textos anteriores. Escrevo, escrevo, escrevo e nada acontece. A coisa toda não se desenvolve. Fico aqui procurando razões para escrever sobre qualquer coisa bonita deste mundo bonito. Mas bonito mesmo para mim é... Peço que me perdoem se, até o final desta composição, eu não me conter. É que faço voltas, procuro floreios e assuntos nos jornais, na revista velha do ano passado, no boletim da escola, na conta de luz – você. É sempre você. Tudo para que não seja sobre você. E agora escrevo feito água de tempestade. Arremesso letras molhadas no papel, mas ainda consigo ler o borrão: é você.
Estive pensando nas coisas da vida e, sinceramente? Eu não espero nada da vida. Aliás: eu espero O NADA da vida. E não posso querer nada. Descobri que querer é um pecado muito grande. E que há sim uma grande verdade no famoso “querer não é poder” que nossos pais nos diziam para coisas tão pequenas. Hoje observo que para todas as coisas deste mundo, devemos querer somente quando se é possível. Outra descoberta: sabemos quando é possível. Veja bem, eu sempre soube que você teria este fim. E quando queria você perto de mim para sempre, era estranho, soava como surrealismo agudo.
Grave o que me aconteceu agora, pois querendo me conter, já não me contive. Leio tudo novamente e percebo que você existe em cada linha. É você é você é você – a tentativa do meu não querer me faz querer a imensidão que é o nada de você. Exatamente por você não ter valor nenhum eu te quero mais – e tudo. Me deixou guloso. Você me fez sofrer e agora eu quero o mundo.

* Confuso. E só para constar: este texto não é para você. 

18 de novembro de 2010

Aleatoriedades (você)

O eu te amo cheio de floreios, os teus olhos fixos no mundo. Não, não olhavam para mim.
- Me disseram que fazemos um casal bonito de se ver...
Como um retrato num corredor cheio de retratos tortos na parede, o nosso era o único em que as pessoas paravam para apreciar, sempre com um sorriso no rosto. Coisa bonita de se ver – (e de se ter?) Mas nem no retrato o teu olhar era fixo. Olhava para um canto qualquer, um pedaço de além. Não sei o que, nem como, você é cheio de ar.
Nas aleatoriedades da vida eu encontrei você. Pudera você ser um boneco, manipulável, feito para mim para ser o que eu quiser. E hoje eu te quereria sem vida, fantoche triste, largado no canto da sala, no fundo do baú, na lata de lixo. Mas você é gente, e como gente, você precisa de mim. E mais ainda do que a uma gente qualquer. Porque tua luz só brilha se for por minha causa. Você só tem uma alma porque eu entreguei a minha a você. Do contrário, você seria oco...
O que me confunde, pois te acho cheio daquilo que me faz te amar tanto e sem medidas e sem pudores. Mesmo sabendo do nada que te habita e que é apenas disfarçado por algumas essências (poucas e minhas). Como o eu te amo todo enfeitado que você me diz nas manhãs de sono, mesmo sendo vazio, o meu ar se alegra pelo simples som da sua voz – eu tremo, eu fervo, eu sinto – eu temo.
O teu amor me causa o desamor. Eu estou cansado... mesmo que eu tenha dito que me amo mais do que a você. Você me faz dizer mentiras a mim mesmo e neste exato momento eu minto (já cansado), pensando que quando você ler meus poemas, uma luz qualquer vai te fazer enxergar que sou eu.
Sou eu, meu amor. Sou eu o teu melhor amor. Sou eu a melhor alma a te habitar. Sou eu a tua melhor escolha, se é que você é capaz de enxergar as outras escolhas diante do tudo de mim. Eu te imploro (talvez já desistindo): queira a mim e somente a mim. E se não quiser, se não souber ser feliz somente ao lado meu, vai doer, mas tudo bem. Eu nunca fui de dividir. E aos poucos eu recolho a minha alma diretamente da essência do teu ser e a coloco a disposição de outra aleatoriedade que pelo menos saiba o que quer.

* Tanto tempo sem postar e sem cuidar do blog. É triste, me dói... mas se faz necessário. Espetáculos começam hoje, que doideira! Torçam por mim! Quanto ao texto, é para a pessoa dos olhos verdes  que me fez rir, chorar e acima de tudo amar. Mesmo que tenha sido em vão, eu insisto e mudo a realidade: valeu a pena. Beijos! Amo vocês que me leem.

3 de novembro de 2010

Durante teu sono

O tédio me mandou te chamar. Sim, minha doce criatura inventada, parida, fruto da minha mente (insana). Ela clama por você novamente. Você esteve dormindo por todos esses dias, eu sei. Você esteve ali porque eu ordenei. É que meus dias estavam sendo preenchidos por outra carne – e alma, você sabe. Eu sentia falta de gente e você nunca me foi gente. E ontem, exatamente ontem à noite, voltando para casa, eu te reparei. Pela primeira vez em dias eu parei e te observei e você parecia ser gente.
Você estava exatamente onde eu havia te deixado, na mesma posição, a mesma respiração pausada e o semblante triste. Devia você sentir minha falta durante o sono? Não sei... talvez o único defeito de fabricação fosse esse. Quando te criei eu não fui capaz de criar também o domínio sobre seus pensamentos, de forma que fico agitado, tentando imaginar.
Mas isso não vem ao caso. Agora o que interessa é que estou me sentindo sozinho e seco. Novamente... novamente. É estranho pensar, uma vez que tenho amor para amar e assim ser amado in return. Uma vez que eu encontrei... uma criatura de verdade(?). Mas sinto tanto a sua falta. A sua companhia que se fazia pela ausência total de vida ao meu redor. Você que eu não sei quem é, mas que esteve comigo em todos os dias ruins. Por que diabos eu só consigo te ter nos dias ruins? Eu te quero agora que estou feliz – feliz?, acorde! Eu quero brincar de pecar porque com você eu sentiria o gosto do proibido sem realmente estar pecando, acorde! Oras, se você não existe... e eu existo, não há maldade neste erro, acorde!
Eis a incompatibilidade da coisa. Existência versus não-existência.  Como fazer para deixar de existir então, meu Deus? Poderia você realmente existir dentro do meu mundo? Ou poderia eu habitar o teu universo? Mas se eu não criei teu universo, egoísmo era tanto que não soube como fazer, só te fiz assim pra ser assim para mim e sempre assim. C R I A T U R A.
Eu que me acostume à sua não existência e me contente com o que existe para mim.

- Durma mais um pouco, meu bem.

* Eis que a criatura ocupa a minha mente novamente. Desculpem a demora, vida corrida, ensaios, arte e um pouco de amor mal resolvido. Não me esqueço de vocês que me lêem.