28 de agosto de 2010

Quando ainda dançávamos

E então abri os olhos como que acordando de um sono leve. Outros dois olhos me olhavam, os teus. Claros feito... não saberia dizer. Só sei que me obrigaram a fechar os meus novamente e dar continuidade ao nosso ritual – o ritual do sono, dos sonhos. Era mágico: um beijo que adormece causando a sensação dos sonhos mais reais que possamos imaginar. Era quase que tarefa difícil acreditar na realidade do acontecimento do teu beijo, porque nossos movimentos eram imperceptíveis. Como numa dança íntima, nossa. Não havia como ensiná-la a ninguém. Não saberiam executá-la com perfeição...
Lembro-me dessa cena que parece ter sido tirada de um romance antigo, de páginas amareladas cheias de lirismo, como se ela tivesse acontecido há cinco minutos. Ainda com a sensação do peito que não para de bater, essa coisa ridícula do apaixonado. E com uma vontade louca de dançar o teu beijo novamente... – mas só por uma noite.
Assim: como uma mulher que vai a uma festa no teu melhor vestido, dá o ar da graça, sorrisos leves e maliciosos. Ela olha para o teu antigo parceiro e dança a noite inteira com ele sem dizer palavra, sem respondê-lo. Ela simplesmente sorri. E no fim da festa, dá-lhe um último beijo – este na testa - e vai embora para sempre, causando o desconforto geral das pessoas daquele lugar e deixando seu parceiro com a sensação de loucura, como se tivesse imaginado tudo aquilo, triste.
Mas acontece que não, não saberia como fazer. Confesso que não teria forças. Estou tendo uma certeza disso, agora. Não saberia representar. Porque sei que no momento que eu olhasse teus olhos claros me olhando novamente e dançasse esse teu beijo que me causa a sensação de um sonho que é tão real, tão perfeito, eu me renderia para sempre a este sono eterno e cometeria mais uma vez o erro de te amar.

* Desculpem a demora para postar... além do tempo que me falta, estou numa fase TERRÍVEL da minha escrita. Estou enlouquecendo. Não consigo produzir com frequência; tenho tanta coisa pra botar pra fora, mas são sensações que não consigo traduzir em palavras. Hoje tive uma luz e fiz este texto. Espero que tenham gostado. Não desistam de mim, por favor. Amo vocês que me leem. Beijos!

20 de agosto de 2010

Um texto sem movimento

As palavras estão mortas. Agora eu sinto que a função de escrever é fazer com que esse resto de vida existente em mim me movimente novamente de alguma forma. Como impulso – e que preciso tanto.
É que eu sempre fui pessoa de movimento. Assim como esse ar todo que circula. Eu sempre fui do indo endo e ando das coisas. Sempre acontecendo, gerando, fluindo manifestos e caos,  causador de bons (ou maus) ventos às pessoas ao meu redor. Circulando.
Até minhas fotografias tinham movimento. Até o mais imperceptível de mim mesmo. Eu era tão intenso na vida – uma intensidade ruim, talvez - que mal percebia as coisas ao meu redor. Eu não as notava, perdoem-me, mas tentem enxergar algo – qualquer coisa – enquanto estiverem se movimentando na velocidade da luz. É impossível.
Até que eu ouvi o estalo, algo tão forte como um tiro ou tão imperceptível quanto o estouro de uma bolha de sabão: mas eficaz. Ordem de recolhimento. Ordem pra parar. Permanecer.
E então permaneço feito coisa morta. Ou pior: coisa que respira sem fazer barulho, que não tem o movimento do pulso, das pálpebras, do tórax. Eu permaneço na existência que não tem sentido, que não tem apoio. Existência que não tem você. 

14 de agosto de 2010

Um segundo

Um segundo de pane – me senti amando e amado, assim, tão rapidamente, tão de repente, tão... intenso. Foi um segundo de não racionalidade. Eu enquanto máquina parei de funcionar e ganhei um coração com um segundo de vida no exato momento em que você atravessava a rua.  Amor de um segundo.
Você passou, me olhou e eu te amei. Eu te amei eternamente naquele segundo. Tive um segundo para roubar tua essência para mim e o sistema confirmou: operação realizada com sucesso. Tua essência e teu amor. De um segundo.
Eu te possuí ali mesmo na calçada e nós nos sentíamos livres, uma leveza de criar asas. Em um segundo eu só tive a chance de ouvir a primeira sílaba do teu nome – que é segredo e que é lindo. Um segundo gritado.
Um segundo foi o suficiente para que amor de ódio se fizesse. É que amor de ódio é mais deliciosamente perigoso. Tive um segundo de medo. Tive um segundo de orgasmo. Esse causador da minha morte líquida (petit mort) e que fez do meu líquido o teu doce veneno. Um segundo de nós dois.
Um segundo de pavor. Tive céu e inferno em minhas mãos por um segundo e também o teu sorriso pervertidamente inocente. Um segundo de choque. Um segundo de toques. Um segundo do relógio, o tic.

Tac.

Sou máquina sem coração novamente.

11 de agosto de 2010

A coisa vista

Confusão. Acontece da seguinte forma: eu escrevo, escrevo, escrevo – e não chego a entendimento nenhum. A releitura me provoca arrepios. Eu tenho nojo, eu sinto o gosto do vazio mais preenchido de sentimentos do mundo. Só que a união de todos os sentimentos do mundo funciona meio que como todas as cores existentes somadas: o resultado é o branco. 
Então eu mergulho e me afogo nesse branco que é líquido e que vai entrando pelos poros da minha alma. Sinto-me exatamente assim: cego, surdo e mudo de sentimentos. Até que uma mão surge e me tira desse mar sem sal. Mão de um desconhecido qualquer, talvez minha própria mão, afinal, sou desconhecido de mim mesmo e ainda deve me restar um pouco de amor (próprio) e vontade de continuar. Apesar das confusões, apesar das não-soluções impostas pelo desamor.
E uma vez recuperado desse afogamento, eu me sinto assustado, olhos arregalados, medo refletido no espelho. É que eu só sei o que se passa em mim quando eu visualizo a coisa. O papel feito reflexo da minha alma. Mas quando a coisa vista não tem forma, eu me desespero.

8 de agosto de 2010

Tentativa

– Eu não posso te fazer acreditar no meu amor. – disse. Sentiu que as palavras atingiram forte no peito, provocando a não reação de quem ouvia. Mas precisava ser dito.
Não que seu amor não tivesse valia. Não que seu amor fosse ruim. É que se encontrava na seguinte condição: paralisado de sentimentos. Estava cercado por uma barreira criada por ele mesmo, mas que no meio do caminho criou vida própria. Encontrava-se imerso num eterno nada que foi deixado em sua alma: um nada grosso e elástico que o impulsionava ao sentimento, mas logo o puxava novamente trazendo-o para território seguro, sua casa, sua bolha.
É que ele havia se tornado criatura desacreditada. Era tanta dor que fora obrigado a tomar medidas drásticas. Então todas as expectativas que tinha sobre o mundo, sobre a vida, sobre o amor, foram guardadas num canto de sua existência, canto este secreto até para si mesmo, coisa que vai além de trancar a caixa e jogar a chave fora. Suas expectativas dependiam agora do acaso, da vontade do acaso de fazê-lo voltar a acreditar.
Ouvia com frequência que era tudo questão de se permitir, se dar uma nova chance. Mas já foram tantas essas “chances”, meu Deus! Se tivesse cota de tentativas já teria ultrapassado o limite. E não se permitiria mesmo errar por tentar, não agora, não mais.
Ah, acreditar cansava. Arriscar causava sangramento. A alma tremia simplesmente ao pensar em risco novo. Decidiu da seguinte forma: agora estava tudo nas mãos do senhor tempo. “Que belo clichê”, pensava. Mas era sua única crença.
Lembrava ter ouvido num filme a seguinte frase: o tempo arruina tudo.
“Tudo bem, pode ser que sim”, pensou. “Mas por mais que ele arruine tudo, a tragédia obriga a recuperação total das perdas. Então que eu arruine até ser recuperado por completo. Aí sim eu me permito amar novamente.”
Queria ter conseguido dizer tudo isso, mesmo que a situação não pedisse explicação. Não conseguiu. Deu-lhe um beijo no rosto, um último sorriso confuso e partiu.

* À pessoa da inspiração: sinta-se feliz. Minha primeira pseudo-narrativa surgiu por tua causa. Aos demais leitores, perdoem-me a inexperiência com narrativas. –rs; E novamente à pessoa da inspiração: não é forma de te atingir, não é aviso, nem nada. É um texto que nasceu. 

5 de agosto de 2010

Acontecência

Ah, eu quero cuspir. Eu quero te fazer entender que é assim: eu amo a um desconhecido. Acontece numa força, um amor de nascimento inexplicável. ACONTECÊNCIA.
Eu não entendo. O sentimento vem com tal intensidade que chega a doer. Assim como as palavras que escrevo agora. Cada letra sai dos poros da alma e da carne – ambas cansadas de acreditar.
É que eu vim aqui pra falar da minha inspiração. Mas minha inspiração me remete ao amor que não tenho, à dor que é companheira, e ao eterno nada da minha humanidade.
Ah sim, eu sou humano. E me dói saber que amor não é pra mim. Dói mais ainda não poder te acreditar, desconhecido.
Eu te amo, mesmo que tenha nascido agora, invenção minha – amante. Mas não posso acreditar. É que te inventei assim: encantado pela minha arte; fiz com que os meus versos te causasse arrepios de um prazer que é intelectual, espiritual. Eu te fiz encantado pela minha suposta raridade, na minha maturidade. Mas esqueci de te fazer enxergar o principal: minha humanidade. Veja, eu sou humano! Sou criatura que sangra! Você parece não enxergar... e te falta tanto para me alcançar! E não estou sendo prepotente. Estou sendo justo contigo e cruel comigo mesmo. Você, invenção, eu, humano.
Eu sei que tenho a chance, eu tenho as chaves, eu tenho tua mão, eu tenho todos os comandos para te fazer coisa minha. Mas eu simplesmente não posso te fazer existir. Mesmo que já tenha sido criado, eu te mato. Eu não suportaria...


* Texto difícil, eu não consigo entender o que significa para mim. Mas acho melhor postar agora. Seu eu deixasse para postar somente depois do entendimento, talvez eu não postaria. Mudando rapidamente de assunto, tá ficando mais difícil postar com frequência. Aulas, ensaios voltaram. Mas juro não abandonar nem o meu espaço e nem o de vocês. Amo vocês que me lêem.

2 de agosto de 2010

Sobre a inversão dos papéis

Certa vez eu te disse: “tenho medo de você” e sua resposta foi clara, simples: “tenha mesmo”. Lembra-te? Mais objetivo que você, impossível.
Eu era todo coberto de medos, criatura imatura que caía nos teus jogos, no teu colo, tão facilmente, sem desconfiar. Porque você era uma mãe para mim. Não, diferente disso: um pai que eu nunca tive. Éramos pai e filho com uma pitada a mais de desejo. Uma pena que nosso doce incesto nunca teve início. Você preferiu o seu mundo, tudo bem...
O tempo é coisa esquisita. Age nas pessoas sem que elas percebam –  não sentimos o peso na sua execução, mas sim depois da ação terminada. E hoje, para sua própria surpresa, meu amor, você se mostra tão interessado, tão encantado com meu tom de voz, com minhas roupas relaxadas, meu cabelo bagunçado, meus poemas e a minha idade espiritual e mental superiores à idade terrena.
Pois é. O segredo é este: eu fui cobaia do tempo. Experiência viva de que tudo que vai volta. E agora dou-te um aviso: tenha medo de mim. Tenha mesmo. Medo dessa candura, medo de toda a minha poesia agindo sobre você e te fazendo se revelar. Porque hoje eu aproveito tudo que me é dado de bom grado e tomo à força aquilo que não é. E você nem percebe estar sendo roubado – você gosta.
Eu aprendi a ser. Ser o quê? Ser todas as almas existentes em mim. Eu sou vasto. Eu sou claro. Eu sou eu sete vezes. E o mesmo eu que te ama é o eu que vai te fazer sofrer.